Johann Philipp Gabler

Johann Philipp Gabler (1753 – 1826) foi um teólogo protestante alemão. Foi um notório professor de Antigo Testamento em Altdorf, apontado em 1785, e em Jena a partir de 1804.

Enquanto estudava teologia esteve a ponto de abandonar a carreira. Todavia, a chegada de Griesbach à universidade inspirou-lhe um novo entusiasmo. Influenciado por J.G. Eichhorn e J. J. Griesbach, fez parte da corrente da neologia teológica, porém não era um racionalista.

A palestra inaugural de Gabler na Universidade de Altdorf a 30 de março de 1787 foi um marco para os estudos bíblicos. A palestra, com o título “De iusto discriminate theologiae biblicae et dogmaticae regundisque recte utrisque finibus”, propunha a distinção entre teologia bíblica e teologia dogmática (teologia sistemática). Denuncia também a imposição de interpretações no texto bíblico (eisegese). Por fim, elencou as quatro lacunas que impediam uma hermenêutica apropriada:

1-Qualidade distinta dos textos bíblicos. Isto é, o texto bíblico é um gênero textual próprio;

2-Linguagem bíblica distinta da usual;

3-Distância temporal nos costumes do contexto bíblico;

4-Ignorância dos métodos interpretativos.

Citando outro erudito, Tittmann, Gabler argumenta que religião é diferente de teologia. A religião seria transmitida pela doutrina das Escrituras, ensinando o que cada cristão deve conhecer, crer e fazer para garantir a felicidade nesta vida e na vindoura. Religião, portanto, seria conhecimento transparente e claro vivido no cotidiano. De outro lado, teologia seria um conhecimento sutil e erudito, embasado em muitas disciplinas. Seria um conhecimento derivado não só das Sagrada Escrituras, mas também de outras fontes, especialmente do domínio da filosofia e história. Dessa forma, não só Gabler distingue entre teologia bíblica e teologia dogmática, mas também distingue entre teologia vivida e teologia sistematizada.

Gabler restringe a teologia bíblica ao que cada autor especificamente disse ou do qual de seus escritos bíblicos possam ser inferidos. A teologia bíblica deveria ser meramente descritiva, enquanto a teologia dogmática seria normativa. O exame da totalidade doutrinária caberia à teologia dogmática, a qual seria com métodos racionais, porém sempre condicionada à habilidade pessoal, circunstâncias, tempo, local, filiação religiosa, escola de pensamento e outros fatores.

Mais tarde, a distinção de Gabler fruiria em uma adicional diferenciação entre ciências bíblicas e teologia.

Essa curta palestra de Gabler serviu para separar a eisegese de um método circular de leitura bíblica. Eruditos e ministros obviamente criam que suas crenças correpondiam às da Bíblia e impunham suas doutrinas para reinterpretar os autores conforme os termos e interesses do leitor. A crítica de Gabler foi revolucionária em distinguir a teologia da ciência bíblica, mas também teve os efeitos colaterais de um renovado biblicismo e uma desconfiança acerca do polo do leitor e da recepção no processo hermenêutico.

A teologia bíblica permanece a mesma, a saber, porque ela considera apenas aquelas coisas que os homens santos percebiam sobre assuntos pertinentes à religião, e não é feita para acomodar nosso ponto de vista.

BIBLIOGRAFIA

Clique para acessar o Gabler-ProperDistinction-BiblicalTheology.pdf

Stuckenbruck, Loren T. “Johann Philipp Gabler and the delineation of biblical theology.” Scottish journal of theology 52.2 (1999): 139-157.

Wenz, Gunther. “Johann Philipp Gabler (1753-1826).” Kerygma und Dogma 59.3 (2013): 163-163.

Manuscritos originais

Em filologia ou crítica textual o termo “originais” ou “manuscritos originais” é algo impreciso. No geral, em sentido leigo e genérico, “originais” são edições nos idiomas originais. Já em sentido estrito, quando se diz “originais” os biblistas podem referir-se a:

  • Proto-Texto: tradições orais ou fontes escritas das quais se serviram os escribas que tenham fixado um texto destinado ao seu uso público. Parte dos livros de Reis seria proto-texto para os livros de Crônicas.
  • Urtexto: base textual uniforme da qual todas as cópias descendem. A hipotética cópia-matriz mantida no Segundo Templo de Jerusalém da qual os manuscritos seriam comparados seria um exemplo de Urtexto.
  • Autógrafo: um exemplar de uma determinada obra, escrita ou ditada pelo autor ou registrada por amanuenses ou escribas, da qual todas as cópias posteriores seriam descendentes. Vale notar que pode não ser a cópia mais recente da qual os manuscritos descendem, tampouco que se pressupõe que houvesse uma só versão do autógrafo. As várias recensões de Jeremias implicam na circulação de diferentes autógrafos, o que fica claro na passagem da destruição pelo rei Joaquim do rolo de Jeremias produzido por Baruque (Jr 36).
  • Arquétipo ou examplar: é o ancestral direto do qual se derivam um determinado grupo de cópias. Pode ser um Urtexto ou texto posterior que atua como nódulo do qual se ramificou em várias outras cópias e versões, como o caso das recensões luciânicas para o Novo Testamento grego.
  • Vorlage: é o exemplar disponível ao copista ou tradente do qual se produziu uma cópia ou uma tradução. Os Vorlages hebraicos que serviram para traduzir a Septuaginta foi perdido, mas é possível conjecturá-los mediante retroversão. Era comum utilizar mais de um Vorlage para produzir uma só cópia, como os quatro evangelhos serviram de Vorlage para o Diatessaron.
  • Forma canônica (ou “vulgata”): forma relativamente estável do texto utilizada para o culto e exegese intratextual nos primórdios do cristianismo e judaísmo rabínico, sendo os textos citados pela patrística, Talmude, lecionários e outros. São exemplos a Vulgata e a Peshitta durante a era manuscrita. Com o advento da imprensa, a forma canônica passou a ser tida como “o” textus receptus, da qual as divergências das fontes seriam meros detalhes, como no caso das famílias de edições impressas do Texto Massorético a partir de  Bomberg e das famílias das edições do Novo Testamento chamadas de Textus Receptus desde Erasmo de Roterdã.
  • Texto reconstruído: é a forma reconstruída pelos filólogos ou críticos textuais. De certa maneira, é um contrônimo, pois não seria o texto originário, mas o produto final.

Uma escola de reconstrução textual, chamada de escola lagardiana, trata o autógrafo, Urtexto e arquétipo como fossem um só texto. De modo inverso, outra escola filológica que segue Paul Kahle, não se baseia nessas premissas, mas na suposição de que um texto circula em várias versões até convergir para sua forma canônica publicada e recebida. Em contraste com essas duas escolas, a filologia contemporânea depois da descoberta dos Manuscritos do Mar Morto segue a metodologia sumarizada por Bernard Cerquiglini, na qual diferentes partes de um texto pode possuir diversas trajetórias de transmissão e composição, o que torna a questão do que seria um texto original mais complexa e pluriforme.



BIBLIOGRAFIA

Cerquiglini, Bernard. Éloge de la variante: histoire critique de la philologie. Paris: Seuil, 1989.

Debel, Hans. “The Pluriformity of Pluriformity: a Reassessment of the Hermeneutical Framework for the Text-Critical Analysis of the Hebrew Bible.” PhD diss., KU Leuven, 2011.

de Lagarde, Paul. “Introduction”. Anmerkungen zur griechischen Übersetzung der Proverbien. Leipzig : Brockhaus, 1863.

Epp, Eldon Jay. “The multivalence of the term “original text” in New Testament textual criticism.” Harvard Theological Review 92.3 (1999): 245-281.

Woude, Adam S. van der; Bremmer, J. N.; Florentino, García Martínez. “Pluriformity and Uniformity. Reflections On the Transmission of the Text of the Old Testament.” Sacred History and Sacred Texts in Early Judaism, 1992, pp. 151-169.

Codex Wizanburgensis

Codex Wizanburgensis, ou mais apropriadamente, Codex Guelferbytanus 99 Weissenburgensis, é um manuscrito medieval com trechos da Vulgata latina e homílias de Agostinho.

Os defensores da inclusão da Comma Johanneum afirmam que existe um manuscrito grego chamado “Codex Wizanburgensis” com essa passagem. Porém, é um manuscrito da Vulgata Latina do século VIII, não grego. Jan Krans-Plaisier (2014) localizou o manuscrito, o qual se trata do manuscrito nr. 99 da coleção Weissenburg na biblioteca Herzog August em Wolfenbüttel, Alemanha. O volume contém homílias de Agostinho, as Epístolas universais, as cartas a Timóteo, Tito e Filémon.

A origem dessa informação inacurada vem de uma edição de Lachmann do NT grego e latino (Berlim, 1842 e 1850) e de um artigo de Robert Lewis Dabney de 1871. No entanto, no manuscrito em questão aparece a seguinte leitura:

“E o espírito é a verdade, porque há três que dão testemunho, o espírito, a água e o sangue. E os três são um. Como também no céu há três o pai, a palavra e o espírito. E os três são um.”

SAIBA MAIS

Herzog August Bibliothek 

http://www.hab.de/ausstellung/weissenburg/expo-15.htm

Krans-Plaisier, Jan. Wizanburgensis Revisited. The Amsterdam NT Weblog. 28 de março de 2014. http://vuntblog.blogspot.com/2014/03/wizanburgensis-revisited.html

Crosby-Schøyen Codex

O Crosby-Schøyen Codex é um dos mais antigos códice existentes, oriundo do Egito.

É datado de cerca de 250, o que indica a ampla adoção do formato de códice para os livros dos primeiros cristãos a partir do século III.

O volume de papiros encadernado foi escrito no dialeto saídico da língua copta de Alexandria, Egito. O Códice consiste em 52 folhas, das quais 16 estão faltando. Em média, cada página mede 15×15 cm e constam 2 colunas de 11 -18 linhas de texto em escrita uncial copta.

O Crosby-Schøyen Codex é contado entre a coleção dos papiros Bodmer, no entando, foi descoberto por camponeses egípcios em 1952, a 12 km a leste do sítio de Nag Hammadi. Pertence à coleção dos papéis de Dishna, que contém 38 livros (rolos e códices). Talvez pertencesse à biblioteca do Mosteiro de São Pacômio.

O códice representa o texto completo mais antigo conhecido de dois livros da Bíblia, Jonas e 1 Pedro. Contém, adicionalmente, a relação dos Mártires Judeus (2 Macabeus 5:27 – 7:41), um texto de Melito de Sardes (Peri Pascha 47 – 105) uma Homilia para a manhã de Páscoa, talvez o mais antigo sermão encontrado.

SAIBA MAIS

https://www.schoyencollection.com/bible-collection-foreword/coptic-bible/crosby-schoyen-codex-ms-193

Johann Albrecht Bengel

Johann Albrecht Bengel (1687 – 1752) foi um teólogo e comentarista do Novo Testamento e líder pietista alemão.

Nascido no ducado de Württemberg, foi influenciado pelo pietismo dessa região. Tornou-se professor e administrador no seminário luterano.

Produziu uma edição crítica do Textus Receptus do Novo Testamento (1734), anotando diferentes gradações de autoridade nas variantes textuais. Para tal, utilizava um engenhoso código de classificação da autoridade textual. Nas notas de rodapé havia listado leituras encontradas em diversas fontas, classificadas em cinco letras do alfabeto grego. A letra α indicava a leitura que considerava a melhor ou a verdadeira; β, uma leitura melhor que a do texto; γ, um igual à leitura textual; e δ, leituras inferiores às do texto.

Como biblista, escreveu o Gnomon Novi Testamenti, o qual inspirou as Notas explanatórias sobre o Novo Testamento de John Wesley. Publicado em 1742 depois de vinte anos de pesquisa, modestamente intitula como um gnomon ou índice. Consistia em uma coleção de anotações exegéticas breves e opiniões eruditas a cada passagem, virtualmente comentando verso a verso. O propósito seria guiar o leitor para verificar o significado por si mesmo. Propunha não importar nada de doutrina para a Escritura, mas extrair dela todo o entendimento teológico. Desse modo, iniciou uma abordagem indutiva de hermenêutica bíblica.

Cunhou o conceito de famílias textuais de manuscritos. Utilizou duas famílias, uma africana ou alexandrina e outra constantinopolitana ou asiática que compreendia todas as outras variantes.

Estabeleceu dois cânones para a ecdótica bíblica: “o texto mais curto tende ser o mais antigo e melhor” e a “leitura mais difícil é a preferível”.

Seu interesse escatológicos o fez prever o início do milênio para 1837 e provocou ruptura com os morávios, aos quais rejeitavam esquemas e especulações sobre as últimas coisas.

O compromisso de Johann Albecht Bengel com as Escrituras resume em seu ditado “Te tatum applica ad textum: rem total applica ad te” — aplique-se totalmente ao texto: aplique-o totalmente a você.