Teoria do bode expiatório

A teoria do bode expiatório é uma perspectiva soteriológica sacrificial de como a morte de Cristo proporciona a reconciliação da humanidade com Deus, porém rechaçando noções de redenção mediante violência.

O mitologista e antropólogo filosófico francês René Girard (1923 –2015) propõe a teoria mimética de que todo o desenvolvimento da cultura humana – a religião, as instituições, a organização social – fundamenta-se em mecanismos de contenção da violência.

Girard transpôs suas análises para textos bíblicos e para a teologia cristã da expiação. No entanto, seria James Alison quem refinaria em termos teológicos a teoria do bode expiatório.

Girard e Alison propõem uma substituição vicária, mas não penal. A humanidade odiou os ensinos e vida de Cristo porque não o podia imitar. Foi sacrificado como uma vítima do ódio humano. A morte gera um arrependimento e possibilidade de restaurar a ordem originalmente proposta.

A teoria do bode expiatório exonera Deus de uma injusta substituição penal e transfere a culpa à humanidade. Em algo próximo às teorias de influência moral e exemplo moral, pela teoria do bode expiatório o assassínio violento de Cristo altera o curso da história humana.

De modo independente da teoria girardiana, alguns biblistas notaram paralelos entre o bode expiatório de Levítico 16 e Jesus Cristo. Em pesquisas recentes sobre os Evangelhos Sinópticos, representação de Jesus como um bode expiatório semelhante a Pharmakos no Evangelho de Marcos. Analizando Marcos 15:16-20, Adela Yarbro Collins sugere um paralelo antigos rituais mediterrâneos de “bode expiatório”, comparando a morte humilhante de Jesus ao ritual grego pharmakos. Nesse ritual, um marginalizado socialmente tido como um vagabundo era trajado como rei e humilhado publicamente. Segundo Richard DeMaris, Marcos narra a paixão de Jesus como um “rito de saída curativo” com elementos tanto do pharmakos grego quanto do devotio romano. Collins também conecta a morte de Jesus ao ritual levítico do bode expiatório, enquanto DeMaris enfatiza sua dupla função como pharmakos e devotio. Além disso, Hannah An sugere que após o batismo de Jesus em Mateus 3-4, sua partida guiada pelo Espírito para o deserto para lidar com os pecados dahumanidade segue o modelo do bode expiatório. An traça paralelos com Mateus 3.15 “para cumprir toda a justiça”, e o batismo de João com a imposição das mãos sobre o bode por Arão. Então Jesus é enviado às tentações do deserto. Enquanto Jesus levou quarenta dias e triunfou, os quarenta anos de peregrinação de Israel no deserto resultaram em fracasso.

BIBLIOGRAFIA

Alison, James. Raising Abel: The Recovery of the Eschatological Imagination. New York: Crossroad Publishers, 1996.

An, Hannah S. “Reading Matthew’s Account of the Baptism and Temptation of
Jesus (Matt. 3:5-4:1) with the Scapegoat Rite on the Day of Atonement (Lev. 16:20-22),” Canon & Culture 12, no. 1 (2018): 11-13.

Alves, Leonardo. O violento e o sagrado em dois filmes de suspense. Ensaios e Notas, 2019.

Girard, René. Violência e o Sagrado. São Paulo: Paz e Terra, 1990.

Kailey, Michelle (2008) “Redeeming the Atonement: Girardian Theory,” Denison Journal of Religion: Vol. 8 , Article 7.

Moscicke, Hans M. “Jesus as Goat of the Day of Atonement in Recent Synoptic
Gospels Research,” Currents in Biblical Research 17, no. 1 (2018): 59-80.

Moscicke, Hans M. The New Day of Atonement: A Matthean Typology. Tübingen: Mohr Siebeck, 2020.

Teoria da substituição penal

A teoria da substituição penal é uma perspectiva soteriológica forense de como a morte de Cristo proporciona a reconciliação da humanidade com Deus.

Nessa perspectiva da expiação pela substituição penal, os pecados original e atuais são ofensas à santidade e à justiça de Deus. A satisfação a essa ofensa seria paga pela morte de Cristo (razão para essa teoria ser chamada por vezes de expiação transacional ou comercial). Cristo foi o único capaz de suportar a penalidade total do pecado do homem em sua morte vicária. Toda a culpa e o castigo que os pecadores merecem foram transferidos para Cristo. A obediência de Cristo em vida e sofrimentos em sua pena total foram de tal modo que o pecado não seja mais imputado ou a pena exigida daqueles por quem Ele morreu. Assim, a penalidade dos pecados foi transferida para Cristo por imputação.

As bases bíblicas geralmente apontadas são João 11:50-52; Romanos 5:8-9; Tito 2:14; 1 Pedro 3:18.

Inicialmente a teoria da substituição penal foi elaborada por Calvino com base na teoria de satisfação de Anselmo e da imputação da justificação de Lutero. Vale atentar que tanto Calvino quanto Lutero tratavam da doutrina de modo complexo, sem exclusivamente reduzi-la ao modelo de substituição penal. Calvino refinou essa doutrina em seu debate com Andreas Osiander. Foi contestada por Hugo Grócio e alguns arminianos mediante a teoria governamental de expiação. Entretanto, a teoria da substituição penal ganhou uma versão em John Wesley que se tornou corrente entre arminianos de língua inglesa.

Variantes ocorreram nas confissões calvinistas do século XVII e na teoria do representante federal. Essa variante foi desenvolvida por Cocceius, Turretin e John Gill. Nela, por uma aliança das obras Adão foi o representante federal de toda a humanidade. Portanto, seu pecado e suas consequências seriam legalmente imputados a todos. Cristo seria a contrapartida e representante, mas sendo divino e humano, não pecou. Estaria, assim, representando a humanidade diante do Pai.

A ênfase no vicário (substituição) leva a uma reafirmação pleonástica de “substituição vicária” para distinguir essa doutrina de outras variantes substitutivas de expiação, mas não penais. Um exemplo de substituição não penal é a teoria do prêmio. No final do século XIX, o teólogo sueco P. P. Waldenström chegou à conclusão de que Cristo morreu não para mudar a atitude de Deus Pai para com os pecadores, mas para mudar o coração dos pecadores. Essa variante é chamada de teoria do prêmio (premial theory) da expiação, pois considera o prêmio do lado vitorioso em um caso forense. É uma teoria popular entre denominações e grupos avivados de matriz escandinava.

A doutrina da substituição penal distingue-se também das teorias sacrificiais de Zinzerford e Girard. A soteriologia do teólogo morávio é sacrificial, mas não substitutiva. Zinzendorf centrava-se na metáfora de Cristo como o Cordeiro imolado, cujo sangue e feridas resgataram o mundo, proporcionavam a união mística e exemplo para humanidade. Influenciado por Dippel, não aceitava que o Deus de amor se satisfaria com a morte de um substituto para a humanidade. Já na teoria do bode expiatório René Girard e James Alison propõem uma substituição vicária, mas não penal. A humanidade odiou os ensinos e vida de Cristo porque não o podia imitar. Foi sacrificado como uma vítima do ódio humano. A morte gera um arrependimento e possibilidade de restaurar a ordem originalmente proposta.

As doutrinas da substituição penal ou expiação sacrificial e mesmo todo o sistema de soteriologia forense recebe diversas críticas teológicas. Um problema o qual essa teoria não responde é a do papel do Espírito Santo bem como não liga ou explica a expiação às transformações proporcionada pela graça desde salvação até cura divina. Há ainda críticas à moralidade dessa teoria. Por exemplo, Rita Nakashima Brock compara expiação sacrificial a abuso infantil divino. Em pesquisa empíritca, Hydinger e seus colaboradores encontraram uma correlação entre a propagação dessa doutrina com sofrimentos psicológicos. Ainda esse modelo contradiz as evidências bíblicas e históricas sobre a função do sacrifício na antiga religião israelita, o qual não tinha caráter forense. Outra crítica é que na ideia de que na cruz Cristo recebeu a punição exata e literal da humanidade não corresponde exatamente a um inferno de sofrimento eterno em penalidade ao pecado. Todavia, na Declaração de Cambridge (cidade de Massachussetts), elaborada em 1996 pela Alliance of Confessing Evangelicals, um grupo de pastores novo calvinistas e de alguns luteranos, consideraram a doutrina da substituição como o próprio evangelho:

Segunda tese: Solus Christus

Reafirmamos que nossa salvação é realizada somente pela obra mediadora do Cristo histórico. Sua vida sem pecado e expiação substitutiva por si só são suficientes para nossa justificação e reconciliação com o Pai.

Negamos que o evangelho seja pregado se a obra substitutiva de Cristo não for declarada e a fé em Cristo e em sua obra não for solicitada.

Diante desse ataque à fé cristã tradicional, reacendeu-se a discussão sobre a doutrina da expiação. Teólogos evangélicos e de diversas vertentes denominacionais responderam com novas articulações das doutrinas históricas do cristianismo sobre a expiação tanto em termos de soteriologia forense quanto de soteriologia transformativa.

BIBLIOGRAFIA

Belousek, Darrin W. Snyder. Atonement, justice, and peace: The message of the cross and the mission of the church. Grand Rapids: Eerdmans, 2011.

Brock, Rita Nakashima; Parker, Rebecca Ann Parker. Saving paradise: How Christianity traded love of this world for crucifixion and empire. Beacon Press, 2008.

Hydinger, Kristen, et al. “Penal substitutionary atonement and concern for suffering: An empirical study.” Journal of Psychology and Theology 45.1 (2017): 33-45.

McGrath, Alister E. Iustitia Dei: a history of the Christian doctrine of justification. Cambridge University Press, 2005.

Stott, John R.W. The Cross of Christ. Downers Grove, Ill. : InterVarsity Press, 1986.

Stump, Eleonore. Atonement, Oxford University Press, 2019.

Teoria da União Mística

A teoria da união mística da expiação é um modelo de soteriologia transformativa para explicar o processo de reconciliação proporcionado por Cristo.

A teoria mística sustenta que a salvação não resume apenas no sacrifício de Cristo na cruz, mas de sua natureza divina-humana sendo comunicada conosco desde a encarnação até a ascenção.

Essa teoria enfatiza a divinização (theosis ou participação da natureza divina) da humanidade por meio da encarnação de Cristo. Ele entrou no mundo como um fermento transformador e, por meio de sua influência, a humanidade é transformada, levando à redenção.

Cristo é o espelho da divindade que desperta a consciência divina naqueles que o encontram. A expiação é uma obra contínua do Espírito Santo na igreja, não apenas um evento único. Assim, a separação feita por Melanchton entre justificação e santificação seria sem sentido.

A restauração da humanidade a um estado de santidade e perfeição é uma parte vital da expiação, e a igreja desempenha um papel crucial em apoiar e encorajar os crentes em seu crescimento espiritual.

As bases bíblicas normalmente apontadas são Jo 1:12-13; Rm 6:15-23; 8:29-30; 2 Pe 1:3-4; Cl 1:27; 1 Jo 3:2.

Em sua encarnação, Cristo assumiu a natureza humana como era em Adão, incluindo sua corrupção inata e predisposição ao mal moral. No entanto, ele evitou que sua natureza humana manifestasse qualquer pecado real por meio do poder do Espírito Santo ou de sua natureza divina, gradualmente a purificou por meio de luta e sofrimento e extirpou completamente sua depravação original em sua morte, reunindo-a com Deus. A purificação subjetiva da natureza humana na pessoa de Jesus Cristo constitui sua expiação, e as pessoas são salvas ao se tornarem participantes de sua nova humanidade pela fé quando se identificam com Cristo.

Historicamente, as bases desse modelo encontra-se na concepção ortodoxa oriental, principalmente com Dionísio Pseudoareopagita. No Ocidente no século IX, Félix de Urgel foi um dos proponentes, mas oposto por Alcuíno de York. As vertentes místicas ocidentais, principalmente as influencidas pela Theologia Germanica, apresentam elementos desse modelo, deixando marcas na soteriologia de Lutero e do pietismo alemão (mas não na escolástica luterana, que optou por modelos forenses como metáfora estruturante).

A união mística foi central para os irmãos morávios desde a época de Zinzendorf. Aliada com noções de participação das feridas e do sangue vertido pelo Cordeiro (Ap 7:13-17), os morávios viram o sangue como elemento de purgar como detergente contra toda iniquidade, compartilhar sua natureza humana, empatizar com o próximo por ser partícipe desse mesmo sangue. A teologia da expiação morávia apresenta uma perspectiva distinta sobre a expiação vicária de Cristo, denominada “expiação através da comunidade” ou “expiação através da união”. O sacrifício de Cristo pelos pecados humanos reflete o desejo de um relacionamento pessoal de Deus com a humanidade, presente pelo Espírito Santo. De acordo com a sua teologia, o perdão não é alcançado apenas através do reconhecimento do sacrifício de Cristo, mas necessita de um encontro pessoal com Ele. Este encontro é possibilitado pelo Espírito Santo, levando os indivíduos a construir um relacionamento pessoal com Cristo. Os Morávios sublinham uma reconciliação abrangente, afectando tanto a relação divino-humana como as ligações interpessoais, destacando a importância do envolvimento pessoal com Cristo.

Nos séculos XVIII e XIX teve um renascimento pelas obras de Gottfried Menken, Karl Friedrich Klaiber, Johann Gerhard Hasenkam e Rudolf Stier em rejeição ao modelo anselmiano de satisfação. Em língua inglesa, William Law e Edward Irving foram seus expoentes, mas não atraíram adeptos. Com Irving, a doutrina ganhou conotações de restauração física contra enfermidades também. Erroneamente, a teoria de expiação de Schleiermacher é listada por alguns autores nessa vertente. Contudo, é uma teoria própria.

A Escola Finlandesa afirma a necessidade de aspectos forenses e eficazes (transformativos) da justificação. Sua cristologia centra-se na unidade “ôntica real” entre Cristo e os cristãos, entendendo a justificação diante de Deus principalmente como uma união “ôntica real” de Cristo com o crente individual. Assim, a justiça inerente à alma redimida é o próprio Cristo.

Central para a Escola Finlandesa é o conceito de “união com Cristo” (unio cum Christo), que ensina que através da fé, os crentes experimentam uma transformação ontológica. Esta transformação não pode ser reduzida a não meramente uma declaração legal, mas envolve a habitação real de Cristo dentro do crente, levando a uma mudança profunda em seu ser e ações

No luteranismo confessional norteamericano Jordan Cooper reafirma a teoria da união mística explicando quatro aspectos da união com Cristo com base no método escolástico. Há a “união geral” ou a relação metafísica que sempre existe entre o contingente e o Absoluto, ordenada pelo Logos transcendente de Deus, dentro da qual todas as coisas derivam seu ser essencial de Deus. Segue-se a “união objectiva” efetuada pela Encarnação, na qual a natureza divina de Cristo está unida à sua natureza humana, e que permite que o sofrimento e a morte de Jesus coloquem a humanidade, universal e objetivamente, de volta numa relação correta (justificada) com Deus. Vem “união formal de fé” (unio fidei formalis), quando Cristo vem habitar e estar presente nos corações de cada cristão. Por fim, a salvação compreende “união mística” (unio mystica) o encontro cada vez mais profundo com Cristo no qual o crente é conformado à Sua imagem.

BIBLIOGRAFIA

Cooper, Jordan. Union with Christ: Salvation as Participation. A Contemporary Protestant Scholastic Theology Volume 6. Ithaca, NY: Weidner Institute, 2021.

Kärkkäinen, Veli-Matti. One with God: Salvation as deification and justification. Liturgical Press, 2004.

Saarinen, Risto. “Justification by Faith: The View of the Mannermaa School” In The Oxford handbook of Martin Luther’s theology. OUP Oxford, 2014.

VEJA TAMBÉM

Teose

Teoria participatória da expiação

Soteriologia transformativa

Teoria da satisfação

A doutrina da satisfação ou teoria da compensação para a obra reconciliatória de Jesus Cristo postula que por sua a vinda e morte os pecados foram expiados porque, mesmo que a honra de Deus tenha sido ofendida pelo pecado, Cristo pagou pelos pecadores uma satisfação ao Pai.

Proposta originalmente pelo teólogo medieval Anselmo em reação à doutrina do resgate da expiação. Anselmo considerava ímpia a noção de resgate como uma transação comercial paga a Satanás. Assim, a teoria da satisfação explicava porque era necessário que Deus se tornasse humano para satisfazer a justiça divina, maculada pelo pecado original.

A base bíblica mais importante para essa perspectiva encontra-se em João 10:18.

Pode-se resumir o pensamento da teologia de Anselmo que Deus é o ser com os máximos atributos possíveis. Sendo o mais justo, deveria ter sua justiça divina satisfeita. Essa seria a razão pela qual Deus se tornou humano e morreu pelos pecados dos seres humanos. Pelo pecado, a humanidade ofendeu a honra de Deus. Por isso, a justiça de Deus exige satisfação por essa ofensa. Porém, somente alguém totalmente santo e puro poderia realizar essa satisfação. Por isso, Jesus Cristo como Deus encarnado foi o único capaz. Sua morte fiel permitiu satisfazer a necessidade divina por justiça, apaziguar sua ira e reconstituir sua honra.

Portanto, se não é apropriado que Deus faça algo injusto ou fora do curso, então não pertence à sua liberdade, compaixão ou vontade deixar impune o pecador que não retorna a Deus daquilo que o pecador defraudou-o.
Cur Deus Homo 1.12

Nas sociedades urbanas e no direito civil contemporâneo ocidental não é algo corrente pensar em honra e satisfação. A soteriologia forense e a noção de justiça de Anselmo foram concebidas em uma matriz cultural do direito franco-germânico medieval. Por esse motivo, Hasting Rashdall (1919) vê a soteriologia de Anselmo como a atuação de um advogado lombardo em uma corte feudal.

Na sociedade feudal, um ofensor era obrigado compensar ou dar uma satisfação ao ofendido de acordo com o status dessa pessoa. Assim, um crime contra um rei exigiria mais satisfação do que um crime contra um barão ou um servo. Por analogia, a humanidade finita e falha jamais poderia satisfazer a Deus Todo-poderoso. Ela somente poderia esperar apenas a morte eterna. O único meio de reconciliar a humanidade com Deus, portanto, só poderia ser via alguém que fosse tanto Deus – porque Deus poderia vencer o pecado pela impecabilidade – quanto humano – porque os humanos eram culpados de pecado.

Nesse ambiente cutural, Anselmo concebia a justiça de Deus de forma múltipla. A justiça divina, em um aspecto, seria distinguir o bem e o mal. Em outro aspecto, ontológico, a própria justiça de Deus seria o caráter próprio da divindade.

Embora Anselmo tenha sido o primeiro teólogo a expor esta doutrina, vestígios da doutrina da satisfação já podem ser encontrados em autores patrísticos latinos como Tertuliano, Cipriano de Cartago, Agostinho de Hipona e Gregório Magno.

A teoria da satisfação ganhou força entre os escolásticos e depois entre os reformadores, principalmente com a doutrina da imputação da justiça em Lutero e na teoria da substituição penal de Calvino. Variantes da teoria da satisfação constituem uma das principais doutrinas entre católicos romanos e anabatistas sobre a reconciliação.

É digno de nota que Anselmo distingue entre satisfação e punição, enquanto na recepção posterior (como na Summa Theologica de Tomás de Aquino ou no Catecismo de Heidelberg) estas coincidem. Revendo esta doutrina, Thomas Merton diz que a doutrina da expiação por satisfação de acordo com Anselmo foi mal interpretada. Para Anselmo, satisfazer a honra divina seria principalmente buscar a restauração da comunhão entre Deus e o homem, de modo que a honra de Deus é satisfeita quando a paz é restaurada.

Enquanto Anselmo lançou as bases para o conceito de satisfação no discurso teológico, Lutero e Calvino expandiram este tema, particularmente no contexto de apaziguar a ira ou justiça de Deus. Lutero, ao enfatizar a noção da ira de Deus como uma força imparável que deve ser satisfeita, propôs um conflito dramático dentro da pessoa de Deus entre a ira e a misericórdia. Segundo Lutero, na cruz, Jesus atua como uma esponja absorvendo a ira de Deus, extinguindo-a eventualmente através de sua morte sacrificial. Este retrato convida os crentes a se alinharem com a misericórdia de Deus sobre a ira, enquadrando a ira como indesejável e a misericórdia como virtuosa. Por outro lado, Calvino traduziu a teoria da satisfação em termos jurídicos, concentrando-se na justiça de Deus que requer satisfação. Para Calvino, o perdão sem justiça seria injusto, necessitando de uma forma de reconciliar misericórdia e justiça. Neste quadro jurídico, Jesus torna-se um substituto que suporta o castigo exigido pela justiça, conforme delineado na lei de Deus. A cruz é vista como um ato de punição, com o Pai infligindo e o Filho suportando, enfatizando a quantidade crucial de sofrimento necessária para cumprir a justiça.

A maioria dos anabatistas concordou com alguns aspectos da teoria da satisfação sustentada pelos reformadores magisteriais, especialmente que a obra de Cristo foi suficiente para a salvação de toda a humanidade e que a salvação é somente pela graça. Contudo, as teorias da satisfação de Lutero ou Calvino eram inadequadas ou insuficientes. A razão foi porque os reformadores magisteriais concentraram-se principalmente na morte de Cristo. Além disso, a satisfação foi reduzida a uma doutrina passiva ou forense que dizia respeito apenas a uma mudança no estatuto jurídico da humanidade perante Deus, sem produzir mudança interior e ativa no crente. Finalmente, os anabatistas apontaram a negligência do papel do Espírito Santo na salvação da soteriologia magisterial e rejeitaram a distinção melanctoniana entre justificação e santificação.

Uma crítica é restringir a expiação à crucificação. Por esta interpretação, em sua agonia na cruz, Cristo satisfez plenamente a honra, a ira ou a justiça do Pai de modo que nada mais seria necessário. O problema é que isso representa a imagem de um Deus vingativo e mesquinho. Adicionalmente, tal doutrina contraria a necessidade de ressurreição para a expiação, conforme enfatizado pelo Novo Testamento. Se Cristo tivesse apenas morrido, mas não tivesse ressuscitado, Sua morte por si só não seria satisfatória para a expiação dos pecados (1Co 15:17; Rm 4:25).

Outra crítica é o corolário de que nem mesmo Deus é capaz de nos perdoar até que a satisfação seja cumprida. Uma analogia frequente é que seria como um juiz cometer a “injustiça” de abrir um presídio para libertar toda sorte de criminosos que não pagaram suas penas. O problema dessa analogia é não considerar o poder transformativo do evangelho, a graça divina, o ato de resgate por Cristo, a vitória de Cristo sobre o mal que afeta os pecadores, além de limitar a soberania de Deus.

BIBLIOGRAFIA

Anselmo. Cur Deus homo? 1099.

Baur, Ferdinand Christian. Die christliche Lehre von der Versöhnung in ihrer geschichtlichen Entwicklung von der ältesten Zeit bis auf die neueste. Tübingen: C.F. Osiander, 1838.

Green, Joel B.; Baker, Mark D. Recovering the Scandal of the Cross. Downers Grove: IVP, 2000.

Hiebert, Frances F. “The atonement in Anabaptist theology.” Direction 30.2 (2001): 122-138.

Rashdall, Hasting. The Idea of Atonement in Christian Theology. Londres: Macmillan, 1919.

Sattler, Michael (?) “Concerning the Satisfaction of Christ: An Anabaptist Tract on True Christianity,” trans. and intro. by John C. Wenger, The Mennonite Quarterly Review 20 (Oct. 1946): 247.

Teoria da influência moral

A teoria da influência moral é uma doutrina subjetiva da reconciliação para explicar o motivo da obra redentora de Cristo e por quais meios altera a humanidade.

Por essa doutrina, a justiça de Deus é igual a seu amor. Como o pecado é uma ofensa produzida contra essa justiça e amor, Deus dispensou sua graça para reparar o pecador. Por Deus possuir um infinito amor pela humanidade, perdoa os pecados sem exigir punição ou penitência. Deus desperta o amor da humanidade ao enviar Jesus como seu exemplo obediente desse amor. Como deixaria de ser amor se fosse forçado, a obra de ensinos e obediência até a morte de Cristo incutiram o amor a Deus na humanidade.

Os textos bases para essa teoria são Jo 15:13; Rm 5:8; 2 Co 5:17-19; Fp 2:5-11; Cl 3:24. 1 Pe 2:21 e 1 Jo 2:6.

Originalmente traços da teoria da influência moral apareceram com Agostinho, mista com alguns elementos da teoria da satisfação. Como doutrina distinta foi proposta pelo teólogo medieval francês Pedro Abelardo. Ele rejeitou a ideia da morte de Jesus como um resgate pago ao Diabo, pois atribuía poderes divinos a um oponente maligno. Ele também se opôs à teoria da satisfação de Anselmo de que a morte de Jesus seria uma dívida paga à honra de Deus.

“A nossa redenção está, portanto, naquele amor supremo despertado em nós pela paixão de Cristo, amor que não só nos liberta da escravidão do pecado, mas também nos torna participantes da verdadeira liberdade dos filhos de Deus, para que façamos todas as coisas não por medo mas por amor Àquele que nos concedeu tão grande graça”.

Abelardo. Ad Romanos 2:22

Uma perspectiva relacionada, mas que não deve ser confundida, é a “teoria do exemplo moral”, desenvolvida por Faustus Socinus. Enquanto a teoria do exemplo moral a salvação resulta da imitação das obras e seguir os exemplos de Cristo, a teoria da influência moral postula que a obra reconciliatória de Cristo compele o ser humano pecador, pelo Espírito Santo, a amar a Deus e a fazer obras de justiça.

Variantes da teoria da influência moral podem ser encontradas em Johann Albrecht Bengel e nos pietistas de Württemberg, Friedrich Schleiermacher (1768-1834), Hosea Ballou (1771 – 1852), Horace Bushnell (1802-1876) e entre os reformados holandeses em Herman Wiersinga (1927 –2020).

Ballou exemplifica a posição do início do século XIX sobre essa teoria. Sustentava que a vida e os ensinamentos de Jesus são o que traz a reconciliação entre Deus e a humanidade. O amor e compaixão de Jesus nos inspira a abandonar o pecado e seguir o caminho da retidão. Essa teoria enfatiza o poder transformador do amor e a importância de viver uma vida virtuosa.

Raramente lido em seus próprios termos e em seu método dialético, a teoria de influência moral de Abelardo tende a ser representada de forma caricata. Uma das representações distorcidas ocorre principalmente tornar a morte de Cristo sendo um mero exemplo. No entanto, Abelardo enfatiza que Cristo morreu por causa de nossos pecados porque realmente cometemos essas transgressões. Como um dos primeiro proponentes do intencionalismo da vontade, Abelardo dizia que a fé (a confiança) nesse amor de Deus mediante a influência moral de Cristo possibilitaria alinhar o arbítrio da pessoa com a intenção amorosa de Deus. Assim, o ser humano redimido desviaria-se da intenção de pecar e seria conduzido pelo amor a Deus.

Uma crítica à teoria da influência moral é que não explica o motivo da necessidade para a vinda e morte de Cristo, pois qualquer mártir poderia impactar a humanidade de modo despertar tal amor a Deus.

BIBLIOGRAFIA

Barclay, William. The Plain Man Looks at the Apostles’ Creed. Glasgow: William Collins Sons & Co., 1979.

Ballou, Hosea. A Treatise on Atonement. 1805.

Bushnell, Horace. The Vicarious Sacrifice: Grounded in Principles of Universal Obligation. RD Dickinson, 1892.

Crisp, Oliver D. “Moral Exemplarism and Atonement.” Scottish Journal of Theology, vol. 73, no. 2, 2020, pp. 137–149., doi:10.1017/S0036930620000265.

Finlan, Stephen. Salvation Not Purchased: Overcoming the Ransom Idea to Rediscover the Original Gospel Teaching. Eugene: Cascade Books, 2020.

Pedro Abelardo. Expositio in Epistolam ad Romanos.

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Rashdall, Hasting. The Idea of Atonement in Christian Theology. Londres: Macmillan, 1919.