Elizabeth Cady Stanton

Elizabeth Cady Stanton (1815-1902) foi uma sufragista cristã americana. Como ativista dos direitos das mulheres dedicou sua vida a defender a igualdade de gênero.

Nascida em Johnstown, Nova York, Stanton foi criada em uma família cristã devota e frequentou o Troy Female Seminary de Emma Willard. Nessa escola, desenvolveu um compromisso apaixonado pela educação feminina e justiça social.

Apesar de sua campanha pelo abolicionismo, Stanton ainda expressava formas de preconceitos raciais.

As experiências de Stanton como mulher e mãe alimentaram sua defesa dos direitos das mulheres, e ela se tornou uma voz importante no feminismo ocidental. Ao lado de Susan B. Anthony, Stanton co-fundou a Associação Nacional de Sufrágio Feminino e participou da elaboração da Declaração de Sentimentos, que pedia o direito das mulheres ao voto e outros direitos legais e sociais.

Notando viéses contra mulheres nas Bíblias então publicadas, Stanton convindou várias líderes para comentarem as Escrituras sob perspectiva femina. O resultado foi The Woman’s Bible (1895), um comentário que ainda hoje contém reflexões importantes para a exegese.

A formação cristã de Stanton moldou sua crença no valor e dignidade inerentes de cada indivíduo, independentemente de gênero ou outras identidades. Ela viu a opressão das mulheres como uma questão moral e trabalhou incansavelmente para promover os direitos das mulheres por meio de ativismo não violento e engajamento político.

Matilde Calandrini

Matilde Calandrini (1794 – 1866) foi uma educadora, líder evangélica e ativista pelos direitos da educação das mulheres e pela educação pública e universal na Itália.

Calandrini nasceu em Genebra em uma afluente família originária de Lucca, Itália, que no século XVI fora forçada ao exílio por ter aderido à Reforma Protestante.

Depois de sua juventude na Suíça influenciada por Réveil, mudou-se para Pisa em 1831, por motivos de saúde. Na cidade, organizou reuniões sociais que se tornaram reuniões de culto, tanto para estrangeiros protestantes (principalmente ingleses) mas também para a elite católica e secular. Nessas reuniões faziam a leitura da Bíblia, estimulavam programas de popularização das Escrituras, orações espontâneas e debates sobre questões religiosas e morais.

Logo, Calandrini engajou-se com a educação. Na época, cerca de 78% da população era analfabeta. As poucas escolas era controlada pela Igreja Católica e acessível somente para os ricos. A educação dos pobres era vista como perda de tempo e um indesejável risco de fomentação de liberalismo. Mulheres e minorias religiosas eram excluídas da educação.

Um residente cedeu sua casa para Calandrini organizar um jardim de infância para meninas pobres. Os métodos de Pestalozzi já popularizados em Genebra foi frutífero. O sucesso foi grande que logo organizou outro para meninos. O Grão-Ducado de Toscana interessou-se pelo projeto e o responsável pela educação, Conde Guicciardini aproximou-se de Calandrini. Eventualmente, em 1836 Guicciardini converteu-se.

As oposições logo surgiram. Os reacionários queriam reservar a educação somente a uma elite intelectual e financeira. Em 1845 o bispo ordenou que Calandrini parasse com suas reuniões de professores. Suas cartas e contatos com o Grão-Duque garantiram por um tempo a continuidade educacional.

Depois de uma visita à sua família em Genebra em 1846, Matilde foi proibida pelo governo toscano de voltar à Itália. O trabalho iniciado por Calandrini continuou, sobretudo no movimento das escolas dominicais e na puericultura que mais tarde se destacaria Maria Montessori. No final de sua vida, Calandrini pôde retornar e ver a continuidade de sua missão tanto evangelística quanto educacional em favor dos desfavorecidos.

BIBLIOGRAFIA

Ronco, Daisy D. La Vita e le Opere di Matilde Calandrini, Bangor: University of Wales, 1995.

Piero Guicciardini

Conde Piero Guicciardini (1808 – 1886) político, filantropo, reformador e colecionador. Expoente do risveglio italiano, estava entre os fundadores das Igrejas livres mais tarde chamadas de Igreja dos Irmãos.

Nasceu em Florença. Petencia a uma das principais famílias da aristocracia toscana da qual o historiador e diplomata Francesco Guicciardini (1483-1540) foi um expoente.

Foi ativo na vida pública florentina. Envolveu-se nas causas da educação pública, reformas na agricultura, liberdades civis e inclusive religiosa. Convivendo entre expatriados evangélicos, entre eles experimentou uma conversão.

Por volta de 1836 recebeu uma Bíblia em italiano e frequentava as reuniões de oração com a evangélica suíça Matilde Calandrini, que havia fundado um asilo em Pisa. Ao redor dela, consolidou-se um grupo livre de culto, leitura bíblica e santa ceia, animado pelo risveglio.

Foi eleito vereador em Florença em 1850, mas no ano seguinte foi preso em razão de sua fé. O caso gerou grande controvérsia pública. Depois de seis meses de reclusão foi exilado, indo à Suíça, França e Inglaterra.

Nesse último país conheceu e congregava entre os evangélicos italianos organizados em uma igreja livre. Nesse grupo, pela adesão aos princípios eclesiológicos, incorporou-se ao movimento dos Irmãos de Plymouth. Nessa época revisou a Bíblia italiana na versão Diodati, a qual foi publicada pelas sociedades bíblicas.

Dada suas conexões políticas, conseguiu autorização dos liberais italianos engajados com o Rissorgimento para ter a liberdade de culto. Assim, passou a dar apoio aos evangelistas na Itália até que em 1859 pode retornar à Toscana. Entretanto, decepcionou-se com as promessas de liberdade do unificado Reino da Itália, passando a transitar entre lá e a Inglaterra, já que se tinha naturalizado britânico. Assumiu cargos eletivos novamente em Florença e passou a colecionar livros relevantes para o protestantismo italiano.

Grupos de evangélicos não afiliados viviam em tensão com os valdenses e outras denominações na Itália. Desse modo, progressivamente foram se afastando e formando congregações reunidas sob esses princípios:

  • Centralidade do sacrifício de Cristo;
  • Vivência radical do sacerdócio universal dos crentes, reservando aos ministros ordenados o papel de cooperadores (“operai”) em serviço da Igreja;
  • Realização da Santa Ceia possivelmente a cada reunião;
  • Rejeição de formalismo litúrgico;
  • Comunhão plena com qualquer pessoa nascida de novo.

Visto a adesão a esses princípios, Guicciardini compartilhava muito com o movimento dos Irmãos de Plymouth. No entanto, rejeitava a teologia dispensacionalista de John Nelson Darby bem como o crescente exclusivismo nesse movimento, entre os fratelli stretti.

Em 1865 foi reunida em Bolonha uma convenção das igrejas livres italianas. No entanto, já despontava um cisma. O ramo congregacionalista e enfocado em um evangelicalismo espiritual liderado por Guicciardini e T. P. Rossetti tornou-se a Chiese Cristiane dei Fratelli. Já o grupo mais politizado, com ênfase no anticatolicismo, liderado por Alessandro Gavazzi, Luigi Desanctis e Bonaventura Mazzarella formou a Chiesa Cristiana Libera – Chiesa Evangelica Italiana, existente entre 1870 e 1904, de organização presbiteriana.

BIBLIOGRAFIA

https://www.studivaldesi.org/dizionario/evan_det.php?evan_id=261

Maselli, D., ‘Piero Guiccardini. Il conte evangelico’, in D. Bognandi e M. Cignoni (eds.), Scelte di fede e di libertà. Profili di evangelici nell’Italia unita, Torino: Claudiana, 2011.

Ronco, D.D., ‘Per me vivere è Cristo’. La vita e l’opera del conte Piero Guicciardini nel centenario della sua morte, 1808-1886, Fondi: UCEB, 1986

Spini, G., Risorgimento e protestanti, Torino: Claudiana, 2008.

Dorothy Ripley

Dorothy Ripley (1767–1832) foi uma evangelista britânica, que viajou nove vezes como missionária aos Estados Unidos, a primeira em 1801 e a última quando morreu em 1831 na Virgínia.

Ripley era quaker, mas era filha de um pregador leigo metodista. Nascida em Whitby, Inglaterra, cresceu entre os metodistas. Em 1797 sentiu compelida pelo Espírito Santo a pregar o evangelho aos povos escravizados no sul dos Estados Unidos. Compromissada em seu ministério, decidiu nunca se casar.

Ela viajou extensivamente nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha como evangelista no circuito de reuniões campais e nas igrejas que lhe franqueavam os púlpitos. Embora seu ministério não fosse ligado a denominação alguma, o movimento que ela influenciou no Reino Unido resultou no Metodismo Primitivo, valorizando a participação da irmandade leiga nos cultos e na administração das igrejas.

Seu ministério foi voltado para os muitos desprivilegiados. Pregou aos indígenas Oneida, a homens e mulheres nas prisões, nas igrejas afroamericanas e às populações escravizadas no sul dos Estados Unidos.

Vivendo de fé e doação voluntária, muitas vezes foi acusada de ser uma mulher lasciva e até de se prostituir. No entanto, conseguiu publicar seis livros, cuja renda permitiu seu ministério e atendimento aos necessitados. Os títulos são Extraordinary Conversion and Religious Experience of Dorothy Ripley (1810); The Bank of Faith and Works United (1819); An Account of Rose Butler (1819); Letters Addressed to Dorothy RIpley (1807),  An Address to All Difficulties.

Ripley ganhou uma audiência com o presidente Thomas Jefferson para pedir sua permissão para ministrar aos escravos, pregar aos senhores de escravos e fundar uma escola para educar os libertos. Durante a reunião, ela repreendeu Jefferson por manter gente em cativeiro. Mais tarde, em março de 1806, Ripley foi convidada a pregar em um culto na igreja no edifício do Capitólio. Seria a primeira mulher a fazê-lo. Apesar da audiência lotada, Ripley concluiu que poucos ali haviam nascido de novo e fez uma exortação insistente que “o corpo de Cristo era o pão da vida e Seu sangue a bebida dos justos”.

BIBLIOGRAFIA

Everson, Elisa Ann, “A Little Labour of Love”: The Extraordinary Career of Dorothy Ripley, FemaleEvangelist in Early America. Dissertation, Georgia State University, 2007.
https://scholarworks.gsu.edu/english_diss/17

Tuomo Mannermaa

Tuomo Mannermaa (1937-2015) foi um teólogo luterano finlandês, conhecido por sua escola da “Nova Interpretação Finlandesa de Lutero”.

Foi um crítico da Concórdia de Leuenberg que aproximou teologicamente as tradições reformadas e luteranas europeias. Especialista em teologias católica romana e ortodoxa, participou de debates teológicos co essas tradições.

Segundo Mannermaa, a perspectiva de Lutero sobre a salvação seria mais próxima da Igreja Ortodoxa do que imaginado por seus intérpretes luteranos. Mannermaa notou que o ensino de Lutero sobre a justificação estava baseado na justiça que habita no crente, em vez da justiça de Jesus como imputada ao crente. Lutero insistia na realidade da justiça no cristão justificado. O crente seria movido por amor proporcionado pelo Espírito Santo. Assim, argumentava a justificação pela fé em termos de teose. Nisso, a distinção coram deo e coram mundo passa ser irrelevante, pois a justificação seria integral.

Dentre os adeptos da Nova Escola Filandesa estão Simo Peura, Risto Saarinen e Antti Raunio. A escola de Mannermaa também reexamina a teologia e soteriologia de Andreas Osiander com base na união com Cristo. Reafirmam a necessidade de aspectos forenses e efetivas (transformatórias) de justificação. Sua cristologia é centrada na unidade “real-ôntica” entre Cristo e os cristãos. Em outras palavras, justificação diante de Deus deve ser entendida principalmente como uma união “real-ôntica” da pessoa de Cristo com o crente individual. Assim, a justiça que se torna inerente à alma redimida é, então, o próprio Cristo.

BIBLIOGRAFIA

Flogaus, R. Theosis bei Palamas und Luther: Ein Beitrag zum ökumenischen Gespräch. Vandenhoeck & Ruprecht, 1997.

Kärkkäinen, Veli-Matti. One with God: Salvation as deification and justification. Liturgical Press, 2004.

Heubach, J. Luther und Theosis. Martin-Luther-Verlag, 1990.

Macchia, Frank D. Justified in the Spirit: Creation, Redemption, and the Triune God. Eerdmans , 2010.

Saarinen, Risto. “Justification by Faith: The View of the Mannermaa School” In The Oxford handbook of Martin Luther’s theology. OUP Oxford, 2014.

VEJA TAMBÉM

Soteriologia transformativa

Luteranismo