Proto-trinitarismo

Proto-trinitarismo refere-se às formulações que concebem Deus como uma multiplicidade complexa, todavia sendo um único Deus, antes dos consensos cristãos formulados nos concílios de Niceia e Calcedônia.

Nas Escrituras Hebraicas elementos aparecem no “Anjo de Yahweh” e “YHWH katan”, bem como em personificações do Espírito (Ruach), Sabedoria (Sophia), Glória (Shekinah), Palavra (Memra) e Filho do Homem. Também, Deus aparece como uma pleroma divina, assembleia divina ou em uma corte celestial.

No período do Segundo Templo esses elementos fruíram em concepções mais pluriúnicas de Deus por autores como Filo, os Targum, no chamado judaísmo enoquiano das pseudoepígrafas, no proto-rabinismo e na patrística cristã.

BIBLIOGRAFIA

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Kenosis

Kenosis ou Kenose é um conceito bíblico e teológico que se refere ao autoesvaziamento ou auto-renúncia de Cristo. Derivado da palavra grega para “esvaziar”, kenosis significa Jesus renunciando voluntariamente a seus atributos divinos para assumir a forma humana.

Esse conceito de esvaziamento destaca a humildade, o amor sacrificial e a identificação de Jesus com a humanidade, servindo como base para a compreensão da obra redentora de Cristo e o chamado para que os crentes imitem seu exemplo altruísta.

As bases bíblicas são principalmente duas. A primeira é Filipenses 2:5-8, que relata o auto-esvaziamento voluntário de Cristo e assumindo a forma de servo, enfatizando sua humildade e obediência até a morte na cruz. A segunda é 2 Coríntios 8:9, onde fala da pobreza de Cristo, destacando sua disposição de desistir de suas riquezas divinas e tornar-se pobre para que outros possam ser enriquecidos.

Gottfried Thomasius e Christoph Hofmann, teólogos alemães do século XIX, defenderam uma forma radical de kenosis. Argumentaram que Jesus renunciou voluntariamente a atributos divinos essenciais, como onisciência e onipotência, durante sua encarnação. Esta perspectiva extrema enfrentou críticas por comprometer potencialmente a compreensão tradicional da plena divindade de Jesus. Os kenoticistas radicais enfrentaram o desafio de explicar como Cristo poderia ser plenamente divino e, ainda assim, limitar voluntariamente certos atributos divinos. A tensão entre afirmar a divindade de Jesus e explicar a extensão do auto-esvaziamento criou dilemas teológicos.

Em contraste com os seus homólogos alemães, teólogos britânicos como P.T. Forsyth e HR Mackintosh adotaram uma postura mais moderada na teologia quenótica. Em vez de endossar uma renúncia completa aos atributos divinos, concentraram-se na autolimitação de Jesus ao expressar o seu poder e conhecimento divinos no contexto da existência humana. Forsyth, em particular, reinterpretou a kenosis, afirmando que os atributos divinos não eram renunciados, mas exercidos num novo modo de ser. De acordo com Forsyth, a auto-redução de Cristo foi uma expressão genuína e não uma retratação do Deus infinito, levando a uma realização ou plerose.

A teologia kenótica ganhou força como resposta aos teólogos liberais que procuravam minimizar a divindade de Cristo. Ao enfatizar o auto-esvaziamento de Cristo, os proponentes da teologia kenótica pretendiam defender a compreensão tradicional de Jesus como totalmente divino e totalmente humano. A abordagem britânica, em particular, proporcionou um quadro teológico matizado que abordava as preocupações da teologia liberal, mantendo ao mesmo tempo a integridade da divindade de Cristo.

Apesar das suas tentativas de reconciliar os aspectos divinos e humanos na pessoa de Cristo, a teologia kenótica enfrentou críticas significativas. A teoria revisada de Forsyth, embora menos radical, ainda encontrou desafios. Os críticos argumentaram que as teorias kenóticas, nas suas diversas formas, muitas vezes assumiam um caráter mitológico e pareciam sugerir que Cristo só poderia encarnar se fosse de alguma forma menos que totalmente divino. O discurso teológico no século XX viu um declínio na proeminência das teorias quenóticas, à medida que os estudiosos lutavam com as dificuldades conceituais e potenciais armadilhas teológicas associadas a esta estrutura.

Teísmo aberto

Doutrina pela qual Deus não controla meticulosamente o universo, nem exaustivamente conhece o futuro. Tampouco sua presciência seria absoluta, infalível ou inevitável.

Teólogos pós-evangelicais americanos nos anos 1990 como Gregory Boyd, John Sanders e Clark Pinnock propuseram a doutrina do teísmo aberto.

De certa forma, seria uma versão cristianizada, buscando suporte bíblico, para as pressuposições do teísmo do processo de Whitehead e do teísmo finito de Bertocci.

BIBLIOGRAFIA
Clark Pinnock et al., The Openness of God. Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1994.

Abba

Transliteração grega (ἀββα) do aramaico אַבָּא (‘abba’), literalmente “meu pai”, mas entendido simplesmente como “pai”.

Aparece nas porções aramaicas de Dn 5:2, 11, 13, 18. No NT aparece três vezes na expressão bilíngue aramaica e grega “Aba, Pai” quando Jesus no Getsêmani se dirige a Deus-Pai (Mc 14:36) e em Rm 8:15 e em Gl 4:6. Todas as vezes transliterada e seguida de seu equivalente grego (Mc 14:36; Rm 8:15; Gl 4:6).

Transmite uma conotação de intimidade, afeto e confiança familiar. Contudo, é errônea a interpretação de que seria uma forma carinhosa (como “papai”)(Barr, 1988; Chilton, 1993). O termo também é reverente, empregado além do círculo familiar por discípulos de um mestre de alta estima.

BIBLIOGRAFIA

Barr, James. “Abba Isn’t Daddy.” Journal of Theological Studies 39 (1988): 28–47.

Chilton, Bruce. “God as ‘Father’ in the Targumim, in Non-Canonical Literatures of Early Judaism and Primitive Christianity, and in Matthew.” Pages 151–69 in Pseudepigrapha and Early Biblical Interpretation. Journal for the Study of the Pseudepigrapha Supplement Series 14. Studies in Scripture in Early Judaism and Christianity 2. Edited by James Charlesworth and Craig Evans. Sheffield: Sheffield Academic Press, 1993.

Baal

A palavra semítica baal, da raiz  b’l (hebraico בעל; acadiano bēlu [m]), significa como substantivo comum “dono”, “marido”, “senhor” e “mestre”. Também é um substantivo próprio para referir-se a diversas divindades semíticas, como Marduque recebe o apelativo Bel em acadiano.

Como substantivo próprio refere-se ao deus Baal com domínio sobre as forças naturais, o clima e relações sexuais quando associado com sua consorte Astarte. Outros deuses além desse Baal específico, também eram chamados de “baals” (baalim), além manifestações locais: Baal-Berith em Siquém (Jz 9:4); Baal de Peor em Sitim (Nm 25:3); Baal Zebube de Ecrom na Filístia (2Rs 1:2-3), de onde vem Belzebu; Baal de Hamom (Ct 8:11). Jezabel introduziu em Samaria a adoração de Baal, deus de Tiro, o qual seria Baal Meqart ou Baal Shamen (1Rs 18:19).

Há dezoito menções a baal sem especificar quem seria. Para complicar, até mesmo o Deus de Israel é, em raras ocasiões, chamado de baal. É nesse sentido que o termo parece em nomes de judeus, como o célebre Baal Shem-Tov (c. 1698 – 1760), o fundador do movimento hassídico. Dentre os versos mais notórios dessa referência de Deus como baal são os seguintes (traduções literais):

Ou o teu Criador [é] o teu Baal, YAHWEH Sabaoth é o seu nome, e o teu Redentor é o Santo de Israel, Deus de toda a terra, é chamado.

Isaías 54: 5

Não como o concerto que fiz com seus pais, no dia [que] tomei pela mão para trazê-los fora da terra do Egito que eles romperam meu concerto, e eu era Baal para eles, diz YAHWEH.

Jeremias 31:32

EL zeloso e [que] vinga,
YAHWEH vinga,
YAHWEH e Baal furioso vingará,
YAHWEH aos seus inimigos
e reservará
Ele [a vingança e a fúria] aos adversários.

Naum 1: 2


E aconteceu, naquele dia, uma afirmação de YAHWEH: Tu me chamarás – meu marido, e não me chamas mais – meu Baal.

Oseias 2:16

A denúncia ao culto a Baal aparece consistemente no período pré-exílico. Aparece no incidente de Peor (Nm 25), no ciclo de Elias e Jezabel (1Rs 16-22), na destruição do templo de Baal em Jerusalém na revolta contra Atalia (2Rs 11:18) e no conflito entre os adoradores de Yahweh e os seguidores de Baal (Jz 6:25-32; 1Rs 18:16- 40).