Antropologia teológica

A Antropologia Teológica é um ramo da teologia sistemática que lida com temas relacionados à humanidade e sua constituição diante das coisas divinas. Não se confunde em métodos, objetivos e escopo com a disciplina homônima da antropologia, ramo das ciências sociais.

A antropologia, em termos teológicos, é o ramo da teologia sistemática que explora a natureza, o propósito e a condição da humanidade em relação a Deus. Examina a compreensão teológica da humanidade como criada por Deus, caída no pecado e redimida por meio de Jesus Cristo.

O estudo da antropologia teológica emprega vários métodos e abordagens. Ele se envolve na exegese bíblica, examinando passagens que revelam percepções sobre a natureza e o propósito da humanidade. Também se baseia em tradições e ensinamentos teológicos, explorando as percepções dos teólogos ao longo da história. Além disso, incorpora a reflexão filosófica para abordar questões relacionadas à identidade humana, ao propósito e à relação entre corpo e alma.

Tópicos principais:

  • Criação e Imago Dei: investiga a doutrina da criação, afirmando que os seres humanos são criados exclusivamente por Deus à Sua imagem (imago Dei). Explora as implicações de ser feito à imagem de Deus, incluindo a dignidade humana, a responsabilidade moral e a capacidade de relacionamento com Deus e com os outros.
  • Hamartiologia: Este tópico explora os efeitos do pecado atual e original (dos pais primevos Adão e Eva) na natureza e na existência humana. Aborda conceitos de pecado original, pecado universal, pecado ancestral, inclinação para o mal, alienação de Deus e distorção das faculdades humanas.
  • Natureza Humana: examina a natureza da humanidade, incluindo a relação entre corpo e alma, o significado do gênero, os aspectos morais e racionais dos seres humanos e a tensão entre a liberdade humana e a soberania divina.
  • Redenção e Restauração: enfoca a obra redentora de Jesus Cristo e seu impacto na humanidade. Explora a doutrina da salvação, considerando temas como justificação, santificação e glorificação. Também aborda o processo de transformação espiritual e a esperança da futura ressurreição e restauração.
  • Implicações éticas: explora as responsabilidades e obrigações morais dos seres humanos à luz de seu relacionamento com Deus e com os outros. Aborda temas como justiça social, direitos humanos, ética e as implicações éticas da imago Dei nas relações humanas e estruturas sociais.
  • Esperança Escatológica: O estudo da antropologia teológica inclui a esperança de cumprimento escatológico para a humanidade. Considera o destino final do ser humano, a ressurreição do corpo e a esperança da vida eterna na comunhão com Deus.

Como subdisciplina, essa abordagem discute tópicos como:

  • Constituição ontológica do ser humano;
  • Imortalidade e atitude diante do mundo vindouro;
  • Estado intermediário;
  • A ressurreição e corporalidade;
  • A inerente bondade, maldade ou um misto dos dois;
  • O pecado original, o hybris, a expiação e redenção;
  • Livre-arbítrio e determinismo;
  • A origem do sofrimento e o propósito do mal;
  • O significado da vida ou o propósito da existência.

Constituiçao ontológica do ser humano

Diversas posturas biológicas, psicológicas, antropológicas e teológicas discutem como é constituído o ser humano:

  • Monismo imaterial ou idealismo: há somente uma realidade espiritual e o ser humano integra-a. Proposta por George Berkeley.
  • Monismo material ou fisicalismo: o ser humano é mais um animal, ainda que culturalmente complexo, com a emergência da consciência como variável de processos biológicos sem haver uma alma ou espírito imaterial. Proposta por Uriel Acosta, Marx, Nietzsche, Darwin, Spencer, Freud, L. Baker e Kevin Corcoran.
  • Monismo e teísmo naturalista: pressupõe a existência integrada do ser humano, com um componente (alma ou espírito) emergente da composição biológica. O divino age na história e na natureza de modo imanente, portanto, sem necessidades sobrenaturais de constituir a existência. A novidade dessa abordagem é a combinação de exegese bíblica com informações da antropologia e da neurociência. Seus expoentes são Henry Wheeler Robinson, Aubrey Johnson, N.T. Wright, Nancey Murphy (fisicalismo não reducível) e Joel Green, os últimos ambos ligados ao Seminário Fuller.
  • Emergentismo: sustenta que as almas são pessoais e individuais com propriedades ontologicamente distintas e irredutíveis e capacidades geradas por processos físicos e biológicos de seus corpos. Defendida por A. Peacocke, P. Clayton e T. O’Connor.
  • Monismo psicofísico: almas e corpos (pessoalidade e organismo) são aspectos correlativos de seres humanos. O seres humanos são eventos primordiais que não são nem puramente materiais nem imateriais, mas geram ambos. Postura de John Polkinghorne, Wolfhart Pannenberg e David Griffin.
  • Dualismo corpo-mente: o ser humano possui um corpo material e uma alma racional radicalmente separadas. A humanidade, em sua essência, reside na alma (a substância pensante), enquanto o corpo é sua substância extensa e substituível por recomposição (vide o Navio de Teseu). Proposta por Platão, Agostinho de Hipona, Descartes e Nicolas Malebranche.
  • Realismo hilomorfista: há somente uma substância inseparável para o ser o humano vivente, porém sob dois princípios intrínsecos: a matéria primária é potencial mas assume forma substancial atual. Para a tradição aristotélico-tomista, no geral, esses são os significados para os termos corpo e alma. O aspecto imaterial do ser humano depende do material para adquirir o conhecimento e viver nesse mundo. Proposta por Aristóteles, Duns Scotus, Avicebron e Tomás de Aquino.
  • Trialismo, tripartite ou tricotomia: distinção entre três fundamentos do ser humano: corpo, alma e espírito. Enquanto o ser humano compartilha a matéria e a vida com os animais, a consciência seria um terceiro elemento único. Por vezes, o termo alma refere-se à vida e espírito à consciência, mas há pensadores que usam esses termos de modo invertido. É uma concepção eminentemente cristã, derivada de uma leitura literal de Paulo que disse: “E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo“. 1 Tessalonicenses 5:23. Proposta por autores iniciais da patrística como Irineu, Melito de Sardes, Justino Mártir, Orígenes bem como por pensadores germânicos como Lutero, Kierkegaard, teólogos reformados e luteranos do século XIX.
  • Transcendentalismo ou fenomenologia: postula um espírito universal compartilhado por cada ser humano em particular. O aspecto subjetivo do ser humano o separa radicalmente dos objetos. Proposta por Immanuel Kant, Ralph Waldo Emerson e Edmund Husserl.
  • Existencialismo: a existência precede a essência. O ser humano existe no mundo e com suas escolhas se define como ser ou essência. Proposta por Heidegger, Sartre e Gabriel Marcel.
  • Estruturalismo e antropologia simbólica: a realidade humana reside em plano simbólico, boa parte inconsciente. O sentido do ser humano é relacional, principalmente moldado mediante as estruturas sociais, relações de poder e teias de símbolos. Proposta por Cassirer, Jung, Lévi-Strauss, Geertz e Michel Foucault.

Nos textos bíblicos há um conjunto de perspectivas sobre a ontologia do ser humano. O consenso entre biblistas era que antes do Exílio, os antigos hebreus eram monistas, mas depois tiveram influências dualistas persas e gregas. No Novo Testamento haveria concepções dicotomistas e tricotomistas. No entanto, pesquisas recentes revelam um cenário mais complexo, como por exemplo a Inscrição de Katumuwa indicando a possibilidade da crença em existência autônoma da alma separada do corpo entre povos semitas.

BIBLIOGRAFIA

Alves, Leonardo. Fundamentos da Antropologia Filosófica. Ensaios e Notas, 2019.

Cooper, John W. Body, Soul, and Life Everlasting: Biblical Anthropology
and the Monism–Dualism Debate
. Grand Rapids: Eerdmans, 1989.

Steiner, Richard C. The nefesh in Israel and kindred spirits in the ancient Near East, with an appendix on the Katumuwa inscription. Ancient Near East Monographs 11. Atlanta: Society of Biblical Literature, 2015.

Amalequitas

Os amalequitas eram os descendentes de Amaleque, que era neto de Esaú (Gn 36:15-16). Como povo, os amalequitas aparentemente eram nômades (talvez, o que os distinguia dos outros edomeus) que habitavam o território sul do Levante.

Os amalequitas foram os primeiros inimigos a atacar Israel em suas jornadas pelo deserto do Egito (Êx 17:8-16). Outras referências a eles sugerem que eram saqueadores proficientes de aldeias e comunidades agrárias (1Sm 30:1-20; Jz 6:1-6).

A injunção de exterminar os amalequitas aparentemente foi levada a cabo (Dt 25:17–18, Êx 17:14 e 1 Sm 15:3). Teriam sido extintos no reinado de Ezequias (1 Cr 4:43). Desse modo, não restam vestígios arqueológicos ou alusões extra-bíblicas a respeito dos amalequitas.

Na história israelita os amalequitas passaram a representar o inimigo arquetípico antissemita, como Hamã, no Livro de Ester.

Abdom

Abdom ou Abdão, em hebraico עַבְדּוֹן ‘Abdon, “servil” ou “serviço”, nome de alguns personagens e uma localidade do Antigo Testamento.

  1. Abdom, filho de Hilel, efraimita da família dos piratonitas. É o décimo primeiro juiz mencionado no Livro dos Juízes (Juízes 12:13-15). Teve quarenta filhos e trinta netos, cujo descendentes montavam 70 jumentas. Reestabeleceu a ordem na região central de Israel após o conflito ente Jefté e os gileaditas.
  2. Abdom filho de Jeiel, pai de Gibeom (1 Crônicas 9:35, 36), um dos benjamitas. Alguns manuscritos da LXX dão o nome “Jeiel”, que não está no Texto Massorético (cf. 1 Crônicas 9:35).
  3. Abdom filho de Mica, enviado pelo rei Josias à profetisa Hulda para consultar sobre o Livro da Lei descoberto no no templo (2 Crônicas 34:20). É chamado Acbor em 2 Reis 22:12, provavelmente por erro de copista.
  4. Abdom, talvez a mesma Ebrom, local citado em Josué 19:28, vila dos levitas no território de Aser (Josué 21:30; 1 Crônicas 6:74). Seria hoje Khirbet’Abdeh.

Documentos de Al-Yahudu

As tabuletas, tabletes, documentos ou textos de Al-Yahudu são uma coleção de cerca de 200 peças de argila dos séculos VI e V aC produzida pela comunidade exilada de judeus na Babilônia após a destruição do Primeiro Templo.

As tabuletas têm o nome do assentamento central mencionado nos documentos, Al-Yahudu (em acadiano, a cidade de Judá).

O documento mais antigo da coleção data de 572 a.C., cerca de 15 anos após a destruição do Templo, durante o reinado de Nabucodonosor II. A tabuleta mais recente data de 477 a.C, durante o reinado de Xerxes I.

Trata-se de um arquivo particular de algumas famílias judaítas contendo transações comerciais, vendas de casas, cartas, heranças. No geral, há um sentimento de buscar integração com as sociedades locais nas quatro gerações do arquivo. Apesar disso, dois nomes aparece com anseios de retorno a Sião.

A comunidade dos exilados tinha liberdade de movimento e transação, mas eram obrigados a cultivar terras e pagar tributos.

A data da transação é conforme ao monarca reinante. Em algumas tabuletas aparecem letras hebraicas ao lado de escritos cuneiformes acadianas.

Não há quase menção da vida religiosa da comunidade, mas o uso de nomes teofóricos faz supor que mantiveram aspectos da religião do Antigo Israel.

Provavelmente este acervo foi descoberto nos 1970 e circulou no mercado irregular de antiguidades até que em 2013 arqueólogos puderam examiná-las.

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Elefantina

Tabuletas de Murashu

Abecedário de Zayt

A rocha de Zayt, encontrada em 2005, no sítio arqueológico de Tel Zayit, na Sefelá, contém um série de caracteres que foram interpretados como o mais antigo abecedário completo em paleo-hebraico ou proto-cananeu, ainda que com pequena variação na ordem.

A pedra de 17 kg foi encontrada em 2005.

BIBLIOGRAFIA

Tappy, Ron E., et al. “An abecedary of the mid-tenth century BCE from the Judaean Shephelah.” Bulletin of the American Schools of Oriental Research 344.1 (2006): 5-46.

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