Escatologia

A escatologia é tanto (1) a expectativa para o futuro, quer momento de intervenção divina dramática na História, quer para além da vida; quanto (2) o estudo sistemático dessas expectativas.

Textos apocalípticos e proféticos constituem importantes fontes para a compreensão da escatologia.

Como disciplina acadêmica, discorre sobre o conjunto de interpretações que acerca da existência após a morte, o fim da história, o fim do cosmos, o juízo, a glória eterna e a punição do mal. Como disciplina acadêmica, discute o reino de Deus em seus aspectos presente e vindouro. Há alguns autores e grupos que enfocam nesse mundo e outros nos céus e nova Terra.

História recente da escatologia cristã

A conhecida taxonomia tripartida do pré-milenismo, pós-milenismo e amilenismo — tantas vezes apresentada como se fosse intrínseca à teologia cristã — é, na realidade, uma construção relativamente tardia. Seu surgimento no século XIX reflete menos uma diferenciação natural da interpretação bíblica do que o produto de transformações polêmicas, sociais e epistemológicas que exigiram uma sistematização mais clara. O pensamento cristão anterior, tanto no contexto patrístico quanto na Reforma, não operava com categorias tão rigidamente definidas. O que existia, em vez disso, era uma escatologia dinâmica e participativa, na qual o reinado de Cristo era concebido como já presente e ainda não consumado. Tempo e eternidade, céu e terra, eram compreendidos como esferas sobrepostas, não como etapas sucessivas.

Na imaginação pré-moderna, a escatologia não era uma linha do tempo, mas uma tensão — um horizonte vivido de expectativa e transformação. Os Padres da Igreja, os místicos e mesmo figuras especulativas do pensamento apocalíptico medieval, como Joaquim de Fiore, falavam da história divina em termos simbólicos, tipológicos e cíclicos. Da mesma forma, os Reformadores, ainda que rejeitassem os excessos medievais, não formularam suas posições na posterior linguagem do pré-, pós- ou amilenismo. Sua ênfase não recaía sobre quando Cristo retornaria em relação a um reinado milenar, mas sobre o que esse retorno significava para a comunidade de fé. A questão decisiva era cristológica — a natureza do reinado presente e futuro de Cristo — e não cronológica.

Como observaram John Wilson e outros estudiosos, a própria distinção entre um retorno antes ou depois do milênio pareceria estranha ao discurso teológico dos séculos XVII e XVIII. Essas tradições anteriores eram marcadas por uma fluidez hermenêutica que as taxonomias modernas tendem a obscurecer. O milênio de Apocalipse 20 podia ser interpretado alegoricamente como a era da Igreja, misticamente como a transformação da alma ou profeticamente como um símbolo da justiça divina irrompendo na história. Os limites nítidos que mais tarde definiriam o pré-, o pós- e o amilenismo simplesmente não eram concebíveis. Aplicar retroativamente tais rótulos a Agostinho, Calvino ou aos puritanos é impor categorias anacrônicas a uma imaginação teológica muito mais holística.

O século XIX, contudo, trouxe consigo uma profunda mudança epistêmica. Uma série de desenvolvimentos culturais e religiosos — o biblicismo (nuda scriptura e um ideal de literalismo bíblico, o surgimento das conferências proféticas e as crises sociais da modernidade — transformou o campo da reflexão escatológica. O advento do literalismo bíblico moderno, em especial, substituiu a leitura simbólica e teológica dos “mil anos” do Apocalipse por uma expectativa cronológica concreta. Números e visões que antes eram tratados como figuras do mistério divino passaram a ser convertidos em dados de um cálculo apocalíptico.

Esse novo ambiente hermenêutico encontrou forma institucional nas conferências proféticas das décadas de 1820 e 1830 — como as de Albury Park na Inglaterra e Powerscourt na Irlanda — que se tornaram verdadeiros laboratórios de construção de sistemas escatológicos. Nesses espaços, a coerência doutrinária tornou-se não apenas um sinal de rigor intelectual, mas também um marcador de identidade de grupo. Leituras concorrentes das Escrituras cristalizaram-se em “posições” distintas, cada uma com sua própria lógica interna, fronteiras e defensores. O resultado foi o nascimento do que hoje chamamos de tipologias milenaristas.

O contexto sociopolítico amplificou esse impulso taxonômico. A confiança iluminista no progresso, o trauma da Revolução Francesa e o ritmo vertiginoso da industrialização exigiram respostas teológicas. Para alguns, a história parecia caminhar rumo ao caos e à apostasia — alimentando um pré-milenismo pessimista, que via a redenção apenas na intervenção divina. Para outros, as mesmas energias modernas de reforma e progresso moral sugeriam que o Reino poderia avançar gradualmente por meio da ação humana — dando origem ao pós-milenismo, um otimismo que associava o evangelho à civilização e à reforma social. Em ambos os casos, as convulsões do mundo foram mapeadas sobre a estrutura do Apocalipse, transformando a profecia em espelho da história moderna.

Por volta da metade do século XIX, os três “tipos ideais” de milenarismo haviam alcançado suas formas clássicas. O pré-milenismo, uma antiga esperança quiliasta reinterpretada em termos modernos, afirmava que Cristo retornaria antes do milênio para inaugurar um reinado terreno após um juízo. Sua coerência e influência foram consolidadas por figuras como John Nelson Darby e o movimento dispensacionalista, que sistematizou a profecia bíblica em um esquema cronológico abrangente.

O pós-milenismo, por sua vez, interpretava o milênio como fruto da missão da Igreja: Cristo retornaria após um longo período de transformação espiritual e moral, durante o qual as nações seriam conquistadas pelo evangelho. Essa escatologia do progresso ressoava com o reavivalismo, a expansão missionária e as energias morais da era vitoriana. Seu otimismo funcionava como um contraponto teológico à fé mais ampla do século XIX na civilização, na educação e na reforma.

Por fim, o amilenismo surgiu como um contramovimento ao literalismo dos dois campos anteriores. Baseando-se nas tradições agostiniana e reformada, interpretava os “mil anos” de modo simbólico, como a era presente da Igreja sob o reinado espiritual de Cristo. Os amilenistas rejeitavam a noção de um reino terreno futuro e enfatizavam, em vez disso, a tensão inaugurada entre o “já” e o “ainda não”. Ironicamente, essa posição — definida mais pelo que negava do que pelo que afirmava — foi a última a tomar forma de modo explícito, cristalizando-se apenas depois que seus rivais já haviam estabelecido os termos do debate.

As especulações escatológicas que emergiram após a Revolução Francesa (1789) encontraram um terreno extraordinariamente fértil para florescer entre os movimentos protestantes dos séculos XVIII e XIX. A combinação entre o trauma político e cultural provocado pela Revolução, uma nova liberdade interpretativa das Escrituras e uma sensação de urgência espiritual criou as condições ideais para a proliferação de leituras apocalípticas. Para muitos cristãos, especialmente na Inglaterra e nos Estados Unidos, os acontecimentos revolucionários não foram apenas transformações sociais, mas sinais proféticos do “fim dos tempos”. A descristianização da França, o Culto à Razão, a execução do rei — visto como um “ungido” — e a perseguição à Igreja foram interpretados como manifestações do “homem da iniquidade” e da “besta” do Apocalipse. Quando as tropas francesas prenderam o papa Pio VI em 1798, tal evento foi entendido como o cumprimento literal de Daniel 7:25 e Apocalipse 13:3, a “ferida mortal” na cabeça da Besta, confirmando aos olhos de muitos que o clímax da história sagrada era iminente.

Nesse contexto, o método historicista — predominante desde a Reforma — ofereceu uma moldura interpretativa que via a história da Igreja como o desenrolar progressivo das profecias bíblicas. A Revolução Francesa parecia completar esse mapa escatológico, sugerindo que a “queda do Anticristo” havia aberto caminho para o Armagedom e a Segunda Vinda. A democratização do estudo bíblico, impulsionada pelo princípio protestante do “sacerdócio universal de todos os crentes” e pela difusão de impressos baratos, permitiu que leigos interpretassem as Escrituras por conta própria e disseminassem suas conclusões em larga escala. Ao mesmo tempo, a crescente desilusão com as igrejas estabelecidas — vistas como frias e formais — alimentava o desejo de um cristianismo mais puro e espiritual, reforçando a expectativa de um reavivamento final antes do retorno de Cristo.

Desse caldo de ansiedade e esperança nasceram os movimentos escatológicos do século XIX. As Conferências Proféticas britânicas e o irvingianismo, nas décadas de 1820 e 1830, reuniram teólogos e leigos que viam na restauração dos dons carismáticos um sinal dos últimos dias — impulso que levou à formação da Igreja Católica Apostólica. Na América, o fazendeiro batista William Miller aplicou o princípio historicista à profecia de Daniel 8:14 e previu o retorno de Cristo entre 1843 e 1844; embora o “Grande Desapontamento” tenha frustrado seus seguidores, dele emergiram os Adventistas do Sétimo Dia. Já o dispensacionalismo, formulado por John Nelson Darby em meados do século XIX, reagiu a essas decepções propondo um sistema teológico alternativo: o pré-milenismo dispensacionalista. Ao distinguir radicalmente entre Israel e a Igreja e ao projetar o cumprimento das profecias para o futuro, Darby ofereceu uma escatologia “à prova de falhas”, mais imune a datas específicas, que ganharia enorme influência no mundo anglo-americano, especialmente por meio das Bíblias de Referência de Scofield no início do século XX.

A escatologia cristã do século XX desenvolveu-se em meio a crises, esperanças e reelaborações teológicas que refletiram as grandes transformações culturais e intelectuais do período. O século começou com um abalo profundo provocado pela obra de Albert Schweitzer, cuja The Quest of the Historical Jesus (1906) rompeu com o otimismo do liberalismo protestante ao demonstrar que Jesus e a Igreja primitiva estavam imersos em um horizonte apocalíptico judaico. Para Schweitzer, o Reino de Deus anunciado por Jesus não era uma metáfora moral, mas uma expectativa iminente de fim cósmico — uma expectativa que não se cumpriu. Essa tese da “escatologia consistente” instaurou uma crise teológica: se o núcleo da mensagem cristã repousava sobre uma profecia frustrada, o que restava de sua credibilidade histórica? Ainda assim, a redescoberta do caráter apocalíptico do cristianismo forçou os teólogos a reposicionar a escatologia no centro da reflexão, não mais como apêndice doutrinário, mas como a chave hermenêutica do Novo Testamento.

Enquanto Schweitzer via a escatologia como colapso, Pierre Teilhard de Chardin reinterpretou-a como evolução. O jesuíta e paleontólogo francês propôs uma visão cósmica do fim, em que a história do universo — da matéria à consciência — se encaminha para uma convergência final no “Ponto Ômega”, que é o próprio Cristo. Ao contrário da expectativa catastrófica de Schweitzer, Teilhard concebeu o fim como consumação do processo criador, em que a humanidade é atraída para Deus pela crescente complexidade e interioridade do cosmos. Sua escatologia, mais otimista e progressiva, ofereceu ao cristianismo um diálogo com a ciência e um horizonte de esperança evolutiva, contrapondo-se tanto ao pessimismo acadêmico quanto ao escapismo literalista que ganhava força entre os dispensacionalistas. Essa tensão entre colapso e convergência seria resolvida de modo criativo por Jürgen Moltmann, cuja Theology of Hope (1964) transformou a escatologia em fundamento de toda teologia cristã. Para Moltmann, a esperança não é fuga, mas engajamento: o futuro de Deus irrompe na história por meio da ressurreição e da missão, convocando os fiéis à transformação social e cósmica. Sua “teologia da esperança” inspirou tanto a teologia política quanto as teologias da libertação, fundindo expectativa escatológica e compromisso ético.

Paralelamente, fora da academia, a escatologia popular tomou outro rumo. O dispensacionalismo, consolidado no fundamentalismo norte-americano, dominou o imaginário evangélico com sua narrativa do arrebatamento pré-tribulacional, da Grande Tribulação e do Milênio literalmente cronológico. Esse esquema detalhado, amplamente divulgada por conferências, filmes e best-sellers como The Late, Great Planet Earth e Left Behind, ofereceu um drama cósmico simplificado e emocionalmente poderoso.

Dentro do pentecostalismo — especialmente em suas origens — floresceu uma alternativa teologicamente distinta: a “escatologia vitoriosa”, inspirada pelos movimentos de renovação espiritual liderados por Johann Christoph Blumhardt e seu filho Christoph Friedrich Blumhardt no século XIX. Ambos haviam experimentado o poder do Espírito em contextos de cura, exorcismo e transformação comunitária, sintetizando sua mensagem na confissão jubilosa: “Jesus é Vitorioso!” (Jesus ist Sieger!). Essa proclamação condensava uma escatologia não orientada para a fuga do mundo, mas para a vitória já inaugurada de Cristo sobre as forças do pecado, da enfermidade e da morte. Em vez de conceber o “fim dos tempos” como um evento catastrófico futuro, essa tradição o entendia como uma invasão progressiva do Reino de Deus na história presente, manifestando-se por meio de sinais do Espírito — curas, profecias, glossolalia e transformação moral — que antecipavam a consumação final.

Entre os primeiros pentecostais, especialmente os que emergiram do avivamento da Rua Azusa (1906), essa escatologia possuía uma dimensão profundamente missionária e inclusiva. O derramamento do Espírito era interpretado como o cumprimento de Joel 2 — um prelúdio da restauração universal prometida por Deus. Assim, a experiência carismática não era um refúgio apocalíptico, mas uma força de renovação social e racial, simbolizando a reversão de Babel e o início de uma nova humanidade unificada no Espírito. Frank D. Macchia e William D. Faupel demonstram que essa ênfase no “já” do Reino, visível em curas, visões e louvor coletivo, constituía o núcleo da identidade pentecostal primitiva — uma fé marcada pela expectativa da vitória divina, não pelo medo do juízo iminente. A escatologia vitoriosa, portanto, afirmava que o fim começara com o Pentecostes e que cada ato de libertação espiritual ou corporal era um sinal da chegada do Reino.

Com o passar das décadas, porém, esse impulso foi gradualmente cooptado e atenuado pelo avanço do dispensacionalismo entre os pentecostais brancos norte-americanos. O desejo de respeitabilidade teológica e integração com o evangelicalismo dominante levou à adoção de esquemas proféticos detalhados — arrebatamento pré-tribulacional, Tribulação de sete anos, Milênio de mil anos cronológicos— que substituíram a linguagem de vitória presente pela expectativa de fuga iminente. As manifestações do Espírito, antes entendidas como antecipações do Reino, passaram a ser vistas como sinais da aproximação do fim e da necessidade de escape do mundo corrompido. Entretanto, nas versões étnicas como no pentecostalismo italiano, nas comunidades negras, latinas e do Sul Global, a escatologia vitoriosa sobreviveu com força renovada.

Nesses contextos, o poder do Espírito continuou a ser experimentado como libertação concreta — cura de doenças, superação de pobreza, exaltações diante das humilhações cotidianas, resistência à opressão — e como esperança ativa, não de evasão, mas de transformação. Walter Hollenweger notou nessa persistência uma afinidade entre o pentecostalismo marginalizado e a teologia da esperança de Moltmann: em ambos, o futuro de Deus já começou a desabrochar no presente, e a espera pelo fim é inseparável do engajamento pela vida, pela justiça e pela restauração de toda a criação.

O século XX, assim, legou à cristandade uma dupla herança: de um lado, a escatologia acadêmica como horizonte de esperança e transformação; de outro, sua apropriação popular como espetáculo de fuga e temor, reflexo das ansiedades modernas e da força irresistível das narrativas simplificadas.

Tópicos da Escatologia

BIBLIOGRAFIA

Althouse, Peter. Spirit of the Last Days: Pentecostal Eschatology in Conversation with Jürgen Moltmann. London: T & T Clark, 2003.

Faupel, William D. The Everlasting Gospel: The Significance of Eschatology in the Development of Pentecostal Thought. JPTS 10. Sheffield, England: Sheffield Academic, 1996.

Kaiser, Walter C. Jr. Preaching and Teaching the Last Things: Old Testament Eschatology for the Life of the Church. Grand Rapids, MI: Baker Academic, 2011.

Macchia, Frank D. “Jesus Is Victor: The Eschatology of the Blumhardts with Implications for Pentecostal Eschatologies.” In Perspectives in Pentecostal Eschatologies: World without End, edited by Peter Althouse and Robby Waddell, 375–400. Eugene, OR: Pickwick, 2010.

McQueen, Larry R. Toward a Pentecostal Eschatology: Discerning the Way Forward. Blandford Forum: Deo Publishing, 2012.

Sandeen, Ernest R. The Roots of Fundamentalism: British and American Millenarianism, 1800-1930. Chicago: University of Chicago Press, 1970.

Wilson, John F. “History, Redemption, and the Millenium” IN Hatch, Nathan O., and Harry S. Stout, eds. Jonathan Edwards and the American experience. Oxford University Press, 1989.

Livro de Enoque

O Livro de Enoque é uma coleção, de gênero apocalíptico, de apócrifa e pseudopigráfica de textos judaicos do período do Segundo Templo atribuídos a Enoque, o bisavô de Noé (Gênesis 5:18).

Geralmente quando se diz “Livro de Enoque” refere-se a 1 Enoque, cujos manuscritos originalmente sobreviveram apenas na língua ge’ez até a descoberta de cópias entre os Manuscritos do Mar Morto. Outros livros ou recensões com o mesmo nome são 2 Enoque em eslavo antigo e 3 Enoque em hebraico. Mais tarde foram descobertas cópias em outros idiomas.

Exceto entre grupos apocalípticos no período do Segundo Templo (por vezes chamado de judaísmo enoquita) e em áreas remotas da Antiguidade Tardia e na Idade Média (Etiópia e Bálcãs), o livro de Enoque não foi tido como canônico. Apesar disso, é citado no Novo Testamento. 1 Enoque é ainda parte do cânon amplo das igrejas ortodoxas etíope e eritreia.

Enoque é uma antologia de vários textos. A secção chamada de Livro Astronômico de Enoque talvez tenha sido composto na região de Samaria cerca 250 a.C. O Livro dos Vigilantes pode remontar da Judeia da década de 240 a.C.2 Enoque talvez seja de 30 ac-70 aC.

Esses textos descrevem como anjos caídos (grigori ou vigilantes) acasalam-se com humanos de onde saíram os gigantes ou nefilim (cf. Gênesis 6:1-2). Há também uma visita de Enoque ao céu na forma de uma visão e suas revelações. Ele também contém descrições do movimento dos corpos celestes.

Eleazar

Eleazar, em hebraico אֶלְעָזָ֖ר, em grego  ̓Ελεαζάρ, significa “Deus é meu auxílio”.

  1. Eleazar filho de Aarão, seu terceiro filho com Eliseba e pai de Fineias (Êx 6:23, 25). Consagrado sacerdote (Êx 28:1), Eleazar supervisionava os levitas coatitas que carregavam a Arca e os móveis sagrados em seus ombros na marcha (Nm 3: 30-32) e foi encarregado de supervisionar o tabernáculo e seus móveis, também o óleo, o incenso, etc. (4:16). Seu irmão Itamar estava sobre os gersonitas e meraritas que transportavam as cortinas do tabernáculo, tábuas, etc. (4:28, 33).
  2. Eleazar filho de Aminadabe, designado para cuidar da Arca da Aliança após seu retorno aos israelitas (1 Sm 7: 1).
  3. Eleazar filho de Dodô, o aoíta, um dos três chefes do exército de Davi (2 Sm 23:9; 1 Cr 11:12).
  4. Eleazar filho de Mali, um merarita, que teve apenas filhas, que se casou com seus primos (1 Cr. 23:21, 22; 24:28).
  5. Um sacerdote que participou da dedicação do muro reconstruído (Ne 12:42).
  6. Eleazar filho de Fineias, um levita (Esdras 8:33), talvez o mesmo acima.
  7. Um filho de Eliúde e um antepassado de Cristo (Mt 1:15).

Livro de Ester

O Livro de Ester é um romance da diáspora. Com astúcia e coragem, a moça Ester salva o povo judeu de um genocídio.

Canonicidade e Testemunhas Textuais
A canonicidade de Ester gerou debates históricos entre as comunidades religiosas, mas é agora amplamente aceita tanto por judeus como por cristãos.

O Livro de Ester, embora não mencionado no Novo Testamento, em Filo ou em Qumran, possui uma rica história textual. Sua mais antiga menção vem de Flávio Josefo, o qual sumarizou a história de Ester em suas Antiguidades Judaicas (11.184-296), demonstrando seu conhecimento e relevância no período. Já por volta de 135 d.C., Aquila elaborou uma tradução grega da Bíblia Hebraica, da qual um fragmento de sua versão de Ester sobreviveu em Ester Rabá 2:7, evidenciando que considerava Ester como Escritura. Os manuscritos mais antigos que possuímos incluem o Códice de Leningrado 19A, o Códice Vaticano e o manuscrito 319 da Septuaginta. A Vetus Latina, uma antiga tradução latina, também contém uma versão de Ester, datada de 330-350 d.C. As testemunhas textuais posteriores revelam uma abundância de manuscritos hebraicos, visto ser um dos livros mais copiados das Escrituras. As versões gregas, notadamente a LXX e o Texto Alfa (AT), apresentam seções adicionais ausentes no Texto Massorético.

Autoria e Data
A autoria de Ester permanece indefinida, envolta em anonimato. Alguns especulam o envolvimento de figuras como Mardoqueu, Esdras ou Neemias, mas as evidências são escassas. A narrativa do livro provavelmente situa-se entre 464-400 aC, sendo ambientado no período persa alinhado com o reinado de Xerxes (486-465 aC), embora Artaxerxes I ou Artexerxes II também sejam indicados como potenciais identidades para o rei Assuero.

Discrepâncias textuais
Os acréscimos gregos a Ester, especialmente nos capítulos 11-16, introduzem discrepâncias e expansões notáveis ausentes no Texto Massorético hebraico. Estas adições, embora ausentes nas tradições talmúdica, targúmica e siríaca, concentram-se em elementos religiosos, detalhes históricos e enfatizam a intervenção divina. Não foram encontrados versões de Ester entre os manuscritos do Mar Morto, mas há um putativo Apócrifo de Ester de Massada.

Debates sobre canonicidade
A canonicidade de Ester enfrentou escrutínio nos círculos judaicos, com a sua ausência nos Manuscritos do Mar Morto levantando questões. Embora a versão do Old Greek (a Septuaginta) conste esse livro, as opiniões variaram entre os rabinos. Os primeiros debates cristãos incluíram a observação de Jerônimo de que os acréscimos estavam ausentes nos textos hebraicos de sua época.

O livro de Ester aparece entre os Cinco Megillot dos Escritos na versão hebraica. Já nas versões gregas aparece no final dos livros históricos.

Historicidade

A historicidade de Ester, antes amplamente aceita, agora encontra questionamentos. Improbabilidades e contradições com fontes externas, como Heródoto, levantam dúvidas. No entanto, o livro se alinha com os costumes, a arquitetura e os nomes persas/iranianos, sugerindo um cenário histórico. A continuidade da tradição do purim é um elemento para reivindicar sua historicidade.

Gênero e Objetivo
O gênero de Ester abrange elementos de conto de sabedoria, conto de corte, história da diáspora, comédia e etiologia de festival. Seu propósito vai além da documentação histórica, visando dar legitimidade à festa de Purim, não instituída na Lei Mosaica, e incentivar a resistência à assimilação.

Teologia
Embora a presença de Deus permaneça oculta (é o único livro bíblico sem referência explícita sobre Deus), temas religiosos permeiam Ester. O jejum, as coincidências providenciais e a declaração de Mardoqueu sobre o papel de Ester sublinham a intervenção divina, mesmo no oculto. Os motivos teológicos destacam a interação entre a ação divina e a iniciativa humana.

Esboço estrutural

  1. Contexto Histórico e Apresentação dos Personagens (1:1-22)
    Apresentação do rei Assuero, seu vasto império e a rainha Vasti.
    Banquete real e a deposição da rainha Vasti por desobediência.
    Busca por uma nova rainha e a seleção de Ester.
    Mordecai, primo e tutor de Ester, e sua importância na trama.
  2. A Ascensão de Ester e a Conspiração de Hamã (2:1-18)
    Ester é levada para o harém real e se destaca entre as candidatas.
    Ester é coroada rainha, mas mantém sua identidade judia em segredo.
    Mordecai descobre uma conspiração contra o rei e a revela através de Ester.
    Hamã, um oficial de alta patente, é promovido e exige honra de todos.
  3. O Decreto de Extermínio e o Desespero dos Judeus (3:1-15)
    Hamã, enfurecido por Mordecai não se curvar diante dele, planeja destruir todos os judeus do império.
    Hamã lança sortes (Purim) para determinar a data do extermínio.
    O rei Assuero, sem saber do ódio de Hamã contra os judeus, assina o decreto.
    A notícia do decreto se espalha e causa grande desespero entre os judeus.
  4. A Coragem de Ester e a Reviravolta da História (4:1-17)
    Mordecai informa Ester sobre o decreto e a persuade a interceder pelo povo judeu.
    Ester, apesar do risco, decide revelar sua identidade judia ao rei.
    Ester organiza um banquete para o rei e Hamã, onde revela o plano de Hamã.
    O rei, furioso, ordena a execução de Hamã e eleva Mordecai a uma posição de destaque.
  5. A Salvação dos Judeus e a Festa de Purim (5:1-10:3)
    Ester intercede novamente pelo povo judeu, e o rei permite que eles se defendam.
    Os judeus se reúnem e derrotam seus inimigos, liderados por Mordecai.
    É instituída a festa de Purim para comemorar a salvação dos judeus.
    Mordecai se torna o segundo homem mais poderoso do reino, e Ester é honrada por sua coragem.