Tibåt Mårqe

Tibåt Mårqe é uma coleção de poesia litúrgica, hinos e composições midráshicas atribuídas ao estudioso, filósofo e poeta samaritano do século IV Mårqe.

Embora o manuscrito mais antigo que sobreviveu remonte ao século XIV, apenas fragmentos sobreviveram. Recentemente, uma nova edição incluindo uma tradução para o inglês foi publicada em 2020.

Este texto, um reescrita dos cinco livros da Torá Samaritana, oferece interpretações ampliadas do Pentateuco, fornecendo ensinamentos teológicos, didáticos e filosóficos, muitas vezes entrelaçados com elementos poéticos.

4 Baruque

Quarto Baruque, também conhecido como Paralipômena de Jeremias, é um texto pseudepigráfico referido como “coisas deixadas de fora (do Livro de) Jeremias” em vários manuscritos gregos antigos. Seriam anotações de Baruque filho de Nerias, secretário de Jeremias.

Embora quase todas as igrejas cristãs o considerem pseudepigráfico, a Igreja Ortodoxa Etíope o inclui como parte da Bíblia Ortodoxa Etíope sob o título “Resto das Palavras de Baruque”.

O texto do Quarto Baruque existe em versões completas e reduzidas, encontradas em grego, etíope Ge’ez (intitulado Resto das Palavras de Baruque), armênio e manuscritos eslavos. Geralmente é datado da primeira metade do século II dC, por volta de 136 dC, devido à menção do sono de 66 anos de Abimeleque, que se acredita ser 66 anos após a queda do Segundo Templo em 70 dC.

Contém fábulas, apresentando animais falantes, frutas eternas e uma águia enviada pelo Senhor que revive os mortos. Algumas partes do texto, incluindo o último capítulo, parecem ter sido acrescentadas na era cristã, levando alguns estudiosos a propor origens cristãs para 4 Baruque.

Jeremias é o protagonista e recebe uma revelação do Senhor sobre a destruição de Jerusalém devido à impiedade dos israelitas. Jeremias informa Baruque, e eles testemunham anjos abrindo as portas da cidade. Jeremias é instruído a esconder milagrosamente as vestes do sumo sacerdote na terra. Depois que os caldeus capturam Jerusalém, Jeremias vai para o exílio com os israelitas, enquanto Baruque permanece na cidade.

Contém o trope do justo dormente. Abimeleque adormece por 66 anos e acordando ao lado de uma cesta de figos frescos, milagrosamente preservados. Este evento leva Abimeleque a se reunir com Baruque e buscar uma maneira de se comunicar com Jeremias, que ainda está na Babilônia. Por meio da oração, Baruque recebe uma águia do Senhor, que carrega uma carta e alguns dos figos frescos para Jeremias. A águia encontra Jeremias presidindo um funeral e traz o falecido de volta à vida, sinalizando o fim do exílio.

Ao retornar a Jerusalém, apenas homens sem esposas estrangeiras podem passar pelo Jordão. Esta postura é consistente com a defesa do texto para o divórcio de esposas estrangeiras e o exílio daqueles que resistem a fazê-lo. Os samaritanos aparecem como descendentes de tais casamentos mistos.

Mulher Samaritana

A Mulher Samaritana ou a Mulher do Poço é uma samaritana que se encontrou com Jesus em Sicar (Jo 4). Teria tido cinco maridos e seu atual companheiro não era seu marido. Jesus prometeu a água viva e a mulher relata a inimizade entre samaritanos e judeus, a esperança messiânica e, por fim, crê em Jesus. Ela refer-se a “este monte”, Gerizim, reverenciado pelos samaritanos, e ao campo que Jacó deu a José (Gn 33:18-20; 48:22).

Papiros de Wadi Daliyeh

Os papiros de Wadi Daliyeh, datados entre 375 a 335 a.C., são 18 documentos parcialmente legíveis, além de 128 selos e bulas de argila, oriundos de Samaria no período Persa.

Demostra a formação de um governo hereditário na região da Samaria pré-helenista. A maioria consiste de documentos de venda de escravos, além de um contrato de empréstimo, um processo civil, e outros contratos.

Foram descobertos em 1962 na caverna de Abu Shinjeh. Junto dos documentos estavam os ossos de 205 indivíduos, possivelmente de samaritanos fugitivos das represálias de Alexandre, o Grande, depois do assassinato de seu sátrapa Andrômaco.

Vários selos contém a fórmula “[Yesha’]yahu filho de [San]balate, Governador de Samaria”.

Esses achados corroboram a (confusa) narrativa de Flávio Josefo sobre o santuário dos samaritanos (História dos Hebreus 11.302–312; 11.321–325). Outra contribuição é que atesta um governador de Samaria chamado Sanbalate no século V a.C..

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Siquém

Siquém, em hebraico שְׁכֶם, shekhem, “ombro”, é uma cidade mencionada várias vezes e cenário de muitos eventos na Bíblia. Na narrativa bíblica, aparece com o motivo literário da aliança (berit). Localiza-se no moderno sítio arqueológico de Tel Balata, próximo a Nablus na Palestina.

Estava localizada na região central de Canaã (e depois no termo de Efraim), na passagem entre o Monte Ebal e Monte Gerizim. Controlava uma importante rota comercial e tinha um vale fértil a leste.

A ocupação pré-histórica como cidade é datada do calcolítico (4o milênio). Da idade do Bronze restam vestígios de um templo-fortaleza dedicado a Baal-Berit (o Senhor da Aliança) (Juízes 8:33; 9:4, 46). Artefatos com inscrições proto-cananeias e algumas tabuletas em escrita acadiana atestam a conexão da cidade com outras nações do Antigo Oriente Médio. Seu nome aparece na estela da Sebek-khu (c.1880-1840 a.C.) e nas Cartas de Amarna (XIII a.C.). A Carta de Siquém (século XIV a.C.) com a cobrança dos honorários de um professor é a mais antiga atestação de escolas e atividades escribais no território de Canaã.

Siquém foi a primeira cidade visitada por Abraão em sua migração de Harã (Gênesis 12:6). Sob a grande árvore (terebinto) de Moré em Siquém Deus apareceu a Abraão. Nesse terebinto Abraão edificou um altar e ofereceu sacrifícios.

A passagem de Abraão por Siquém constitui uma dificuldade bíblica. No discurso de Estevão em Atos 7:2-53, Abraão, ao invés de Jacó, comprou o terreno em Siquém dos filhos de Hamor (cf. At 7:16 com Gênesis 33:18-19; 23:3-20).

Siquém figura com mais destaque nas tradições associadas a Jacó. Em seu retorno de Padam-Aram comprou um lote de terra em Canaã próximo a Siquém, onde ergueu um altar a El Elohe Israel.

Enquanto a família de Jacó vivia estacionada perto da cidade, ocorreu o estupro de Diná (Gênesis 34) pelo príncipe de mesmo nome da cidade, Siquém filho de Hamor. Quando Siquém propôs casamento com Diná, os filhos de Jacó Simeão e Levi enganaram os homens da cidade. Os irmãos persuadiram os siquemitas a serem circuncidados (brit-milah) como requisito para o casamento. Simeão e Levi massacraram os homens enquanto convalesciam da circuncisão. Temendo retaliação, Jacó fugiu para Betel, enterrando os deuses levados por seu clã sob o terebinto.

Na saída do Egito, os israelitas trouxeram o corpo mumificado de José e o enterraram em uma tumba perto da cidade (Josué 24:32). 

Em Siquém, Josué renovou a aliança (berit) do Sinai com os líderes tribais de Israel, talvez venha aí a designação do santuário do Deus da Aliança (El-Berit) ou Senhor da Aliança (Baal-Berit) (Josué 24 24). No loteamento da terra, foi reservada como uma cidade de refúgio levítica coatita (Josué 21:20-21). O santuário de Siquém pode ter sido o primeiro local centralizado de culto dos israelitas (Noth, 1996).

No período dos juízes, Abimeleque, filho de Gideão, vivia com uma concubina em Siquém. Com apoio dos siquemitas, conseguiu ser aclamado rei (Juízes 9:1-6) e matou seus potenciais concorrentes: seus irmãos, exceto a Jotão que escapou. A ascenção de Abimeleque, custeada pelo templo Baal-Berit durou somente três anos, pois o povo de Siquém decidiu substituí-lo por Gaal, filho de Edede. Abimeleque atacou a cidade e seu templo-fortaleza de Baal Berit, onde boa parte da população se refugiou. Abimeleque pôs fogo no templo.

Contrário ao senso comum, a cidade principal dos samaritanos nunca foi Samaria, mas Siquém, dada sua proximidade com o Monte Gerezim. No século II a.C. o historiador e poeta samaritano Teodoto escreveu um épico sobre Siquém, dos quais quarenta e sete hexâmetros são preservados por Eusébio.

Roboão teria sido coroado rei em Siquém (1 Reis 12:1), mas logo a cidade serviu como capital de Jeroboão (1 Reis 12:25), antes da transferência da capital do Reino do Norte para Samaria.

Os salmos 60:6-8 e 108:7-9 mencionam Siquém e outras localidades potentes na vizinhança.

Em seus relatos da perseguição aos israelitas por Antíoco Seleuco (c.170-164 a.C), Josefo cita uma suposta carta ao rei pedindo não serem perseguidos  (Ant Jud 12:257–264). Nessa carta alegam que seriam “sidônios em Siquém”, não israelitas, embora observassem o sábado. Requisitavam que o templo no Monte Gerizim fosse dedicado a Zeus Hellenios. Josefo identifica esses sidônios com os samaritanos. A carta, suas premissas e suas implicações são disputadas pela historiografia. Os “sidônios em Siquém” poderiam ser invenção de Josefo, subtefúgio de uma comunidade perseguida ou mesmo uma colônia distinta de fenícios, como havia em Marisa e Jamnia do Mar da Galileia.

Já na época de Jesus Siquém não existia mais, pois fora destruída por João Hicarno no início do século II a.C. No entanto, Sicar (João 4:5-15), onde havia um poço cavado por Jacó, aparenta ser uma aldeia próxima às ruínas da antiga Siquém.

Na primeira Guerra Judaico-Romana a aldeia próxima Siquém foi destruída pelos romanos (67 d.C.), sendo refundada com o nome de Flavia Neapolis (72 d.C.). Do nome Neápolis deriva a atual designação Nablus.

BIBLIOGRAFIA

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Noth, Martin. The History of Israel. London: Xpress Reprints, 1996.

Wright, G. Ernest. Shechem: The Biography of a Biblical City. New York: McGraw-Hill, 1964.